Público
Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2005
Miguel Frasquilho
Vamos ser claros: a promessa - ou compromisso ou objectivo, como lhes queiram chamar - do Partido Socialista de ter na próxima legislatura um crescimento económico de 3 por cento ao ano e de recuperar os 150 mil postos de trabalho perdidos desde que a governação PSD-CDS/PP iniciou funções, em Abril de 2002, é absolutamente inexequível e, portanto, trata-se de uma farsa que é apresentada à população. É por isso que a procurarei desmascarar nas linhas que se seguem.
Apesar de referir que se trata de um objectivo, o que o PS faz é prometer a criação de 150 mil postos de trabalho até 2009, tudo baseado num crescimento do PIB de 3 por cento ao ano e no já hoje mui famoso "plano" ou "choque tecnológico".
O crescimento económico não se decreta. Não há diploma legal que possa garantir que cresceremos 3 por cento ao ano até 2009. Quem dera que assim fosse, mas as recentes projecções do Banco de Portugal, da Comissão Europeia ou a OCDE não vão nesse sentido: pelo menos até 2006, o crescimento não ultrapassará os 2,5 por cento anuais; e a prestigiada "The Economist" prevê, numa detalhada análise sobre a nossa economia, que um crescimento do PIB de 2,5 por cento seja atingido apenas em 2009, devendo ser sempre inferior até lá.
Logo aqui há uma grande diferença entre os programas eleitorais de PSD e PS nesta matéria. O PSD conta com a "sua" acção directa (isto é, dos decisores políticos e da administração pública), através de um "choque de gestão", para poder reduzir o peso do Estado na economia, elevar a produtividade e mudar este "estado de coisas"; o PS conta com aquilo que não pode controlar: um crescimento de 3 por cento. E, para lá chegar, apresenta um "plano tecnológico" - que ainda nem sequer se conseguiu perceber no que consiste...
Aqui entra o segundo ponto que quero realçar. Um "plano tecnológico" nunca produzirá efeitos palpáveis antes de 10 a 15 anos (uma geração, 20 a 25 anos, é o horizonte mais provável). Como é que o PS nos vem dizer que em apenas quatro anos (!) um "choque tecnológico" terá efeitos?! A possibilidade de o PIB crescer 3 por cento ao ano através de um "plano tecnológico" nem sequer é remota - simplesmente não existe.
Se, por milagre, tal sucedesse, seria possível recuperar os 150 mil postos de trabalho perdidos desde Abril de 2002? A Teoria Económica diz-nos que não, através da famosa lei de Okun, da autoria do economista Arthur Okun, que estabelece que o desemprego tende a reduzir-se (ou aumentar) quando o crescimento do PIB se encontra acima (ou abaixo) do seu crescimento potencial (ou tendência de longo prazo). A simples aplicação ao nosso país desta regra tal como foi formulada por Okun diz-nos que só seria possível recuperar 150 mil empregos em Portugal nos próximos quatro anos se a economia crescesse 4,2 por cento ao ano! Com 3 por cento, seriam criados pouco mais de 40 mil empregos.
O próprio PS reconhece que esta regra se aplica ao nosso país: no Relatório do Orçamento do Estado para 2000 (era o PS governo), na "caixa" da página 19 pode ler-se que "(...) vários estudos empíricos sugerem que em Portugal se tem verificado uma relação de Okun estável desde meados da década de 80". E, para confirmar que o PS tinha razão neste ponto, estimei esta relação para Portugal, com dados desde a nossa adesão à então CEE, em 1986, até agora (uma amostra de anos já significativa), tendo obtido um modelo que, do ponto de vista estatístico, mostrou uma forte aderência à realidade. Depois, projectei o resultado para a nossa economia até 2009, admitindo um crescimento anual de 3 por cento (como "promete" o PS), que o nosso crescimento potencial se situa, actualmente, entre 2 por cento e 2,5 por cento (o que me parece consensual), e partindo dos últimos números conhecidos do desemprego (3º trimestre de 2004, do INE, ou Dezembro de 2004, do IEFP). A conclusão a que cheguei indica que seria possível criar pouco mais de 80 mil postos de trabalho nos próximos quatro anos; para os 150 mil novos empregos, a economia teria de crescer quase a 4 por cento ao ano (mais propriamente 3,9) nos próximos quatro anos. Portanto, a lei de Okun estimada para a nossa economia continua a deitar por terra o "objectivo do PS" na área do emprego até 2009.
Desfeita esta falácia, não deixei de me interrogar - por que diabo teria vindo o PS prometer o impossível? A resposta surgiu logo que o programa eleitoral dos socialistas foi apresentado: por cada duas saídas de funcionários públicos, o PS admite, se vier a formar governo, contratar um novo funcionário! Segundo as suas estimativas, reformar-se-ão, até 2009, cerca de 150 mil funcionários públicos - pelo que entrarão 75 mil novos funcionários. E, desta forma, metade do objectivo de criar 150 mil novos postos de trabalho estaria garantido!
Como sabe o PS que a nossa administração pública necessita de 75 mil novos funcionários? Já estudou o assunto, já sabe as necessidades e os excedentes de todos os organismos e serviços públicos? Duvido. E se bem me lembro: em 2001, no Ecordep de Pina Moura - que infelizmente não chegou a ser colocado em prática, porque o ministro saiu antes de o poder fazer -, a regra não era "uma entrada por quatro saídas"? Ora, já que se gosta tanto de regras, por que não utilizar esta, bem mais restritiva e ambiciosa para modernizar a nossa administração pública e consolidar a despesa do Estado? Julgará o PS que já nos esquecemos do verdadeiro clientelismo despesista de 1996 a 2001, quando foram contratados mais de 130 mil novos funcionários públicos em termos líquidos (ou melhor, mais de 200 mil, porque se reformaram cerca de 70 mil)? Isto é, mais de 22 mil por ano?! É que nos dez anos anteriores, nos governos de Cavaco Silva, foram admitidos, em média, pouco mais de 5 mil funcionários públicos por ano...
Diz o PS que boa parte destas entradas correspondeu a trabalhadores em regime de avença (recibos verdes), que tinham forçosamente de ser integrados no quadro da administração pública. Com certeza; o problema é que esses casos não ultrapassavam os 30 mil a 40 mil indivíduos - e não 130 mil ou 200 mil... Então, entre 1998 e 2001 (com eleições autárquicas, europeias e legislativas no horizonte...), foram quase 30 mil as novas entradas por ano! Dei-me ao trabalho de verificar como teriam evoluído as nossas contas públicas se entre 1998 e 2001 o governo do PS tivesse admitido 10 mil novos funcionários públicos por ano em termos líquidos, mantendo-se tudo o resto constante. Pois bem, o nosso problema orçamental estaria hoje parcialmente resolvido, pois a factura anual corresponde a 1,5 por cento do PIB ou, a preços de hoje, cerca de 2 mil milhões de euros (ou 400 milhões de contos, na moeda antiga). E isto ano após ano...
Para se ter uma ideia: em 2001, Portugal não teria furado o Pacto de Estabilidade e Crescimento e, em 2004, o défice público, que terá atingido 2,9 por cento do PIB, teria sido de 1,4! Ou, de outro modo, não teria sido necessário integrar o fundo de pensões da CGD na Caixa Geral de Aposentações para se ter um défice inferior a 3 por cento do PIB.
Quando ouvimos o PS afirmar que assim o peso das despesas com o pessoal na administração pública será reduzido, nem se acredita - quem pagará as pensões aos 150 mil que se reformam? Claro, o Estado - ou seja, todos nós através dos nossos impostos! Portanto, com a regra do "1 para 2", a factura conjunta dos salários e das pensões públicas explodirá. Não haverá contenção nem consolidação. Pior: os esforços dos últimos três anos terão sido em vão.
É por isso que o voto do dia 20 de Fevereiro precisa de ser muito ponderado. Ainda estamos a pagar a factura da irresponsabilidade, do despesismo e do clientelismo que vigoraram de 1996 a 2001. E é uma factura que perdurará. Será que a queremos tornar ainda mais pesada? É que quer o eng. Sócrates quer a esmagadora maioria dos que o rodeiam são os mesmos que nos governaram entre 1996 e 2001 e fugiram... Entre a farsa "crescimento de 3 por cento ao ano/criação de 150 mil novos empregos" e o regresso ao passado, venha o diabo e escolha...
Economista, candidato do PSD à Assembleia da República pelo círculo eleitoral da Guarda
Wednesday, February 16, 2005
Tuesday, February 15, 2005
O princípio de Pedrito por Joao Pinto e Castro
O princípio de Pedrito
http://blogoexisto.blogspot.com/2004/06/o-princpio-de-pedrito.html
(Há seis anos, o Público acolheu benevolamente nas suas páginas este artigo de opinião. Dada a sua manifesta actualidade, volto hoje a reproduzi-lo aqui sem alterações.)
Segundo o Princípio de Peter, todas as pessoas são promovidas até atingirem o seu nível de incompetência.
Como? Se uma pessoa se revelar competente no desempenho das suas funções, será promovida ao nível hierárquico imediatamente superior. Se voltar a cumprir nessas novas tarefas, será de novo promovida. E assim sucessivamente, até chegar ao ponto em que já não consegue dar conta do recado.
Terá, então, atingido o seu nível de incompetência. Chegada aí, não voltará a ser promovida e ficará estacionada num cargo para o qual, manifestamente, não se encontra preparada.
Assim se assegura que o mundo, nas suas múltiplas instâncias decisórias políticas, empresariais e culturais, é fundamentalmente governado por incompetentes.
Para obviar a este problema, inventou-se em Portugal, país engenhoso entre todos, um sistema melhor: o Princípio de Pedrito, expressamente concebido para evitar os malefícios decorrentes da aplicação do Princípio de Peter.
Manda o Princípio de Pedrito que, se alguém se revelar totalmente incompetente no desempenho das suas funções, não ficará eternamente acorrentado a essas funções, com manifesto prejuízo tanto para o bem-estar público como para o próprio. Pelo contrário, assegurar-se-á a transferência do incompetente para outro cargo onde possa fazer pelo menos tanto mal como no anterior - e, de preferência, bastante pior.
Suponhamos, por exemplo, que Pedrito, dada a sua pouca apetência pelo estudo, entra na escola do vício político pela porta das movimentações estudantis. E que começa logo a criar problemas como militante partidário, pela constante agitação que espalha entre as bases. Recruta-se então Pedrito para dirigente nacional, na sua qualidade de jovem e fanático seguidor do entretanto falecido fundador do partido. Se ele continuar, ainda assim, a revelar mais aptidão para perturbar os espíritos do que para dirigir qualquer coisa, será, na primeira ocasião, enfiado no parlamento à surrelfa do eleitorado, com o propósito de soltá-lo às canelas da oposição.
Se, no parlamento, passar mais tempo a incomodar os colegas de bancada do que a oposição, sugere-se ao prodígio que tente a vida empresarial. Se o projecto empresarial fracassar, convida-se Pedrito para membro do governo. Se, demonstrada a sua total ignorância na área de governação que teve a desgraça de lhe ir parar às mãos, e caído esse governo, ele se candidata a presidente do partido, e falha, ei-lo eleito presidente de um clube de futebol.
Depois de ajudar a afundar um pouco mais esse clube, eis que o seu momentaneamente reprimido sentido do dever o incita a procurar minar o poder do presidente eleito do partido e a iniciar uma guerrilha com o propósito de substituí-lo no momento mais oportuno.
Mas, se essa campanha falhar, haverá sempre a possibilidade de Pedrito se candidatar à Presidência de uma Câmara Municipal, seja ela a de Sintra, a da Figueira da Foz ou a de Saint-Denis. Caso também essa hipótese falhe, talvez a Presidência de uma corporação de bombeiros, combinada com a direcção de um novo jornal, possa servir de rampa de lançamento para uma eventual candidatura à Presidência da República.
Como se vê, não é fácil ganhar a vida nos tempos que correm. Para manter permanentemente as atenções da opinião pública focalizadas sobre si, Pedrito não se poupa a esforços para alcançar elevados níveis de notoriedade.
Para servir essa estratégia, ele trata de aparecer permanentemente no T-Club, na televisão, no Gigi da praia do Ancão, na televisão, no Diário de Notícias, na televisão, na TSF, na televisão, no Record, na televisão, na Nova Gente e na televisão. Ocasionalmente, uma revista de escândalos ou uma campanha publicitária utilizam abusivamente o seu nome, mas isso é irrelevante - o importante é aparecer, aparecer, aparecer sempre.
E, afinal, como está Pedrito de notoriedade?
Hoje em dia, há uma forma muito fácil e infalível de medir a notoriedade de alguém ou de alguma coisa. Basta ir à Internet, entrar num search engine como, por exemplo, o HotBot, e pesquisar quantas referências a essa pessoa se encontram em toda a Web.
Ora acontece que Pedrito, com referências em 88 sites da Internet, tem razões para estar satisfeito. A larga distância encontram-se Marcelo Rebelo de Sousa, com 36, e mesmo Mário Soares, com não mais de 65. Pedrito apenas é claramente batido por Jorge Sampaio, com um espantoso score de 516 referências!
Um dos pontos fracos desta estratégia de comunicação é que não é possível ser-se conhecido em abstracto. É-se sempre conhecido nalguma qualidade, como alguma coisa, e esse alguma coisa é sempre aquilo que destaca alguém face aos outros. Assim, Eusébio é conhecido como o maior futebolista português de todos os tempos. Alves dos Reis é conhecido como o maior vigarista português de todos os tempos. Álvaro Cunhal é conhecido como o único comunista vivo em todo o mundo.
E Pedrito, é conhecido como o quê? Como agitador estudantil? Como jovem político promissor? Como deputado? Como governante? Como único e legítimo herdeiro do fundador? Como dirigente desportivo? Como o eterno derrotado que sai sempre em ombros dos congressos? Como comentador político da televisão? Como comentador desportivo da televisão? Como figura proeminente do jet-set? Como banhista?
Ou, tão somente, como um tribuno de verbo fácil à procura de um lugar à medida das suas ambições?
Seja como for, a verdade é que, até hoje, só um tal Pacheco Pereira se atreveu a contestar a bondade do Princípio de Pedrito. Mas esse não é de confiança: lê muitos livros, é frequentemente acometido de opiniões e, ainda por cima, usa barba.
http://blogoexisto.blogspot.com/2004/06/o-princpio-de-pedrito.html
(Há seis anos, o Público acolheu benevolamente nas suas páginas este artigo de opinião. Dada a sua manifesta actualidade, volto hoje a reproduzi-lo aqui sem alterações.)
Segundo o Princípio de Peter, todas as pessoas são promovidas até atingirem o seu nível de incompetência.
Como? Se uma pessoa se revelar competente no desempenho das suas funções, será promovida ao nível hierárquico imediatamente superior. Se voltar a cumprir nessas novas tarefas, será de novo promovida. E assim sucessivamente, até chegar ao ponto em que já não consegue dar conta do recado.
Terá, então, atingido o seu nível de incompetência. Chegada aí, não voltará a ser promovida e ficará estacionada num cargo para o qual, manifestamente, não se encontra preparada.
Assim se assegura que o mundo, nas suas múltiplas instâncias decisórias políticas, empresariais e culturais, é fundamentalmente governado por incompetentes.
Para obviar a este problema, inventou-se em Portugal, país engenhoso entre todos, um sistema melhor: o Princípio de Pedrito, expressamente concebido para evitar os malefícios decorrentes da aplicação do Princípio de Peter.
Manda o Princípio de Pedrito que, se alguém se revelar totalmente incompetente no desempenho das suas funções, não ficará eternamente acorrentado a essas funções, com manifesto prejuízo tanto para o bem-estar público como para o próprio. Pelo contrário, assegurar-se-á a transferência do incompetente para outro cargo onde possa fazer pelo menos tanto mal como no anterior - e, de preferência, bastante pior.
Suponhamos, por exemplo, que Pedrito, dada a sua pouca apetência pelo estudo, entra na escola do vício político pela porta das movimentações estudantis. E que começa logo a criar problemas como militante partidário, pela constante agitação que espalha entre as bases. Recruta-se então Pedrito para dirigente nacional, na sua qualidade de jovem e fanático seguidor do entretanto falecido fundador do partido. Se ele continuar, ainda assim, a revelar mais aptidão para perturbar os espíritos do que para dirigir qualquer coisa, será, na primeira ocasião, enfiado no parlamento à surrelfa do eleitorado, com o propósito de soltá-lo às canelas da oposição.
Se, no parlamento, passar mais tempo a incomodar os colegas de bancada do que a oposição, sugere-se ao prodígio que tente a vida empresarial. Se o projecto empresarial fracassar, convida-se Pedrito para membro do governo. Se, demonstrada a sua total ignorância na área de governação que teve a desgraça de lhe ir parar às mãos, e caído esse governo, ele se candidata a presidente do partido, e falha, ei-lo eleito presidente de um clube de futebol.
Depois de ajudar a afundar um pouco mais esse clube, eis que o seu momentaneamente reprimido sentido do dever o incita a procurar minar o poder do presidente eleito do partido e a iniciar uma guerrilha com o propósito de substituí-lo no momento mais oportuno.
Mas, se essa campanha falhar, haverá sempre a possibilidade de Pedrito se candidatar à Presidência de uma Câmara Municipal, seja ela a de Sintra, a da Figueira da Foz ou a de Saint-Denis. Caso também essa hipótese falhe, talvez a Presidência de uma corporação de bombeiros, combinada com a direcção de um novo jornal, possa servir de rampa de lançamento para uma eventual candidatura à Presidência da República.
Como se vê, não é fácil ganhar a vida nos tempos que correm. Para manter permanentemente as atenções da opinião pública focalizadas sobre si, Pedrito não se poupa a esforços para alcançar elevados níveis de notoriedade.
Para servir essa estratégia, ele trata de aparecer permanentemente no T-Club, na televisão, no Gigi da praia do Ancão, na televisão, no Diário de Notícias, na televisão, na TSF, na televisão, no Record, na televisão, na Nova Gente e na televisão. Ocasionalmente, uma revista de escândalos ou uma campanha publicitária utilizam abusivamente o seu nome, mas isso é irrelevante - o importante é aparecer, aparecer, aparecer sempre.
E, afinal, como está Pedrito de notoriedade?
Hoje em dia, há uma forma muito fácil e infalível de medir a notoriedade de alguém ou de alguma coisa. Basta ir à Internet, entrar num search engine como, por exemplo, o HotBot, e pesquisar quantas referências a essa pessoa se encontram em toda a Web.
Ora acontece que Pedrito, com referências em 88 sites da Internet, tem razões para estar satisfeito. A larga distância encontram-se Marcelo Rebelo de Sousa, com 36, e mesmo Mário Soares, com não mais de 65. Pedrito apenas é claramente batido por Jorge Sampaio, com um espantoso score de 516 referências!
Um dos pontos fracos desta estratégia de comunicação é que não é possível ser-se conhecido em abstracto. É-se sempre conhecido nalguma qualidade, como alguma coisa, e esse alguma coisa é sempre aquilo que destaca alguém face aos outros. Assim, Eusébio é conhecido como o maior futebolista português de todos os tempos. Alves dos Reis é conhecido como o maior vigarista português de todos os tempos. Álvaro Cunhal é conhecido como o único comunista vivo em todo o mundo.
E Pedrito, é conhecido como o quê? Como agitador estudantil? Como jovem político promissor? Como deputado? Como governante? Como único e legítimo herdeiro do fundador? Como dirigente desportivo? Como o eterno derrotado que sai sempre em ombros dos congressos? Como comentador político da televisão? Como comentador desportivo da televisão? Como figura proeminente do jet-set? Como banhista?
Ou, tão somente, como um tribuno de verbo fácil à procura de um lugar à medida das suas ambições?
Seja como for, a verdade é que, até hoje, só um tal Pacheco Pereira se atreveu a contestar a bondade do Princípio de Pedrito. Mas esse não é de confiança: lê muitos livros, é frequentemente acometido de opiniões e, ainda por cima, usa barba.
Monday, February 14, 2005
Vidente de Fátima morreu aos 97 anos, PSD e CDS-PP suspendem campanha após anúncio da morte da irmã Lúcia
Público, última hora
Política 13-02-2005 - 20h37
Vidente de Fátima morreu aos 97 anos, PSD e CDS-PP suspendem campanha após anúncio da morte da irmã Lúcia
Lusa
O PSD e o CDS-PP decidiram suspender a campanha eleitoral prevista para esta noite, tendo os sociais-democratas alargado a interrupção até amanhã, após o anúncio da morte da irmã Lúcia, hoje, aos 97 anos.
De acordo com o líder do PSD, Pedro Santana Lopes, o comício previsto para esta noite em Cabeceiras de Basto foi já cancelado, mantendo-se apenas um jantar com militantes, que não contará contudo com intervenções políticas.
"Estive há meia hora a falar sobre ela", foi "a última conversa que tive antes de vir para aqui", disse Santana Lopes em declarações à Rádio Renascença à saída de um comício em Guimarães, manifestando "todo o respeito" pela irmã Lúcia.
Para Santana Lopes, a morte da irmã Lúcia constitui um "momento impressionante para Portugal e para o mundo", quer para católicos quer não católicos, porque a religiosa teve também "uma vida impressionante".
O CDS-PP também já reagiu à morte da irmã Lúcia, tendo decidido suspender toda a actividade política programada para esta noite, no âmbito da campanha eleitoral, como sinal de respeito pela figura da vidente de Fátima.
O CDS-PP manterá o jantar previsto com militantes na Guarda, mas, "por respeito pela figura da irmã Lúcia", não haverá intervenções políticas.
Política 13-02-2005 - 20h37
Vidente de Fátima morreu aos 97 anos, PSD e CDS-PP suspendem campanha após anúncio da morte da irmã Lúcia
Lusa
O PSD e o CDS-PP decidiram suspender a campanha eleitoral prevista para esta noite, tendo os sociais-democratas alargado a interrupção até amanhã, após o anúncio da morte da irmã Lúcia, hoje, aos 97 anos.
De acordo com o líder do PSD, Pedro Santana Lopes, o comício previsto para esta noite em Cabeceiras de Basto foi já cancelado, mantendo-se apenas um jantar com militantes, que não contará contudo com intervenções políticas.
"Estive há meia hora a falar sobre ela", foi "a última conversa que tive antes de vir para aqui", disse Santana Lopes em declarações à Rádio Renascença à saída de um comício em Guimarães, manifestando "todo o respeito" pela irmã Lúcia.
Para Santana Lopes, a morte da irmã Lúcia constitui um "momento impressionante para Portugal e para o mundo", quer para católicos quer não católicos, porque a religiosa teve também "uma vida impressionante".
O CDS-PP também já reagiu à morte da irmã Lúcia, tendo decidido suspender toda a actividade política programada para esta noite, no âmbito da campanha eleitoral, como sinal de respeito pela figura da vidente de Fátima.
O CDS-PP manterá o jantar previsto com militantes na Guarda, mas, "por respeito pela figura da irmã Lúcia", não haverá intervenções políticas.
Sunday, February 13, 2005
Quioto "É Claramente Insuficiente" para Conter o Aquecimento Global
Quioto "É Claramente Insuficiente" para Conter o Aquecimento Global
Público, Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
O climatologista do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa não tem dúvidas: o clima, no futuro, vai ser diferente.
Temos é de fazer com que seja "toleravelmente diferente". E não basta o Protocolo de Quioto, que entra em vigor na próxima quarta-feira. Por Ricardo Garcia
Pedro Miranda é o principal autor dos cenários sobre o futuro climático de Portugal, integrados no projecto SIAM, no qual vários cientistas estudam os efeitos do aquecimento global no país. A poucos dias da entrada em vigor do Protocolo de Quioto - que obriga os Estados envolvidos a reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa - fala das variações do clima, de como o país está preparado para acompanhá-las e do que se pode esperar dos cenários de longo prazo.
As alterações climáticas em Portugal são já uma realidade?
A tendência da temperatura em Portugal é parecida com a da temperatura na média global, uma tendência de subida. Assim como a própria evolução lenta. Na média global, foi estimado que existiu um período de aquecimento até aos anos 40, depois houve um de arrefecimento até aos anos 70 e a partir de meados dessa década começou a actual tendência de aquecimento. E em Portugal estas variações funcionam muito bem. Nós estamos a aquecer a uma taxa que é parecida com a taxa média de aquecimento do mundo.
Estas variações não podem significar que estamos apenas a passar por um ciclo de aquecimento e não por uma alteração irreversível?
Aqui há dez anos, muitas pessoas diriam isso com convicção. Agora há um conjunto de factos que fazem suspeitar que isto não é verdade. Primeiro, a composição atmosférica não está a oscilar. A concentração, em particular de dióxido de carbono mas também de outros gases com efeito de estufa, tem crescido constantemente e não mostra nenhum sinal de diminuição.
Havendo este crescimento na concentração de gases com efeito de estufa, a consequência mais simples que podemos pensar é que o clima vai aquecer. Outro facto é o de que os últimos dez anos concentram praticamente todos os anos mais quentes do último século.
E isso não pode ser uma variação natural do clima?
Há estimativas que indicam que não houve nenhuma variação deste tipo nos últimos mil anos. Isto é um facto que, neste momento, é difícil de contestar.
É um exagero dizer que uma onda de calor como a do Verão de 2003 é um indicador das alterações climáticas?
É seguramente um exagero, a partir de um episódio, concluir imediatamente que estamos em fase de alterações climáticas. Mas quando nós temos muitos episódios em quinze anos seguidos, então começamos a pensar provavelmente que as alterações climáticas estão aí.
E para Portugal há alguma indicação neste sentido? Por exemplo, de que é maior a frequência de eventos meteorológicos extremos?
Penso que não existe um estudo muito claro em relação a isto. Há um sobre a evolução de indicadores de seca que parece indicar que as últimas décadas tiveram uma frequência de seca de Inverno mais alta. Em relação a cheias e tempestades, eu penso que não existe nada de muito credível neste momento para Portugal. Aliás, mesmo para o mundo existe alguma incerteza sobre isto.
É claro que há algumas ideias que podem ser consistentes com isto. Uma consequência possível do aquecimento global é que o ciclo da água se torna mais intenso num mundo mais quente. Se temos mais água na atmosfera, é provável que tenhamos mais tempestades. A água é aquilo que põe a máquina climática a andar.
O projecto SIAM aponta para importantes alterações climáticas no país. Que alterações são estas?
Os cenários de mudança global produzidos por qualquer modelo disponível neste momento indicam aquecimentos muito significativos nas próximas décadas, que, no caso da Península Ibérica, podem chegar a sete ou oito graus para a temperatura de Verão. No que se refere à precitipação, há sempre mais incerteza.
Mesmo na previsão do tempo para amanhã, é mais fácil prever a variação da temperatura do que prever a chuva que vai acontecer. Em geral, os modelos apontam para a redução da precipitação no Sul da Europa, não só em Portugal. O que os cenários propõem é um Inverno mais curto, com menos chuva na Primavera e no Outono, e menos precipitação total também.
Até que ponto se pode confiar nestes cenários? Esta é a principal crítica dos Estados Unidos...
O objectivo deste tipo de estudos não é tanto prever o que é que vai ser o clima no fim do século XX, mas é ver quais são os riscos que corremos, se não fizermos nada em relação à situação actual. Não podemos emitir gases com efeito de estufa sem limite. Temos de ter cuidado.
Provavelmente, o Governo americano só vai fazer alguma coisa quando os dados observados reais forem de tal forma drásticos que eles sintam que têm de fazer alguma coisa.
Qual é o aspecto mais sensível de adaptação de Portugal às alterações climáticas?
A variável mais importante nisto das alterações climáticas é provavelmente a água. O problema dos recursos hídricos em Portugal pode tornar-se muito complicado num cenário de aquecimento global.
Até que ponto o país está bem apetrechado para acompanhar a evolução do clima?
Em termos de monitorização climática, Portugal não está muito bem apetrechado. Houve um desinvestimento nas estruturas do Estado que fazem este acompanhamento, em particular no Instituto de Meteorologia.
O que falta? Equipamentos?
No caso do Instituto de Meteorologia, eu diria que o grande problema é a falta de pessoas. O Estado precisa de ter cientistas a trabalhar a tempo inteiro sobre este tipo de assuntos. E estes assuntos não devem ser tratados unicamente no contexto universitário.
Se o Protocolo de Quioto for cumprido, até que ponto vai ajudar no combate às alterações climáticas?
Em termos de emissões [de gases com efeito de estufa], o protocolo não vai resolver nenhum problema. Em termos políticos, é um sinal muito importante. O Protocolo de Quioto é só um primeiro passo; do ponto de vista técnico, é claramente insuficiente. Consoante aquilo que fizer e que outros protocolos que vão ter de vir a seguir a Quioto fizerem, nós vamos estabilizar [a concentração de gases com efeito de estufa] a níveis diferentes. Isto vai implicar climas diferentes.
Que o clima vai ser diferente no futuro é então um ponto pacífico?
O clima vai ser diferente. O objectivo das pessoas que se preocupam com isto é que ele seja toleravelmente diferente.
Público, Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
O climatologista do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa não tem dúvidas: o clima, no futuro, vai ser diferente.
Temos é de fazer com que seja "toleravelmente diferente". E não basta o Protocolo de Quioto, que entra em vigor na próxima quarta-feira. Por Ricardo Garcia
Pedro Miranda é o principal autor dos cenários sobre o futuro climático de Portugal, integrados no projecto SIAM, no qual vários cientistas estudam os efeitos do aquecimento global no país. A poucos dias da entrada em vigor do Protocolo de Quioto - que obriga os Estados envolvidos a reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa - fala das variações do clima, de como o país está preparado para acompanhá-las e do que se pode esperar dos cenários de longo prazo.
As alterações climáticas em Portugal são já uma realidade?
A tendência da temperatura em Portugal é parecida com a da temperatura na média global, uma tendência de subida. Assim como a própria evolução lenta. Na média global, foi estimado que existiu um período de aquecimento até aos anos 40, depois houve um de arrefecimento até aos anos 70 e a partir de meados dessa década começou a actual tendência de aquecimento. E em Portugal estas variações funcionam muito bem. Nós estamos a aquecer a uma taxa que é parecida com a taxa média de aquecimento do mundo.
Estas variações não podem significar que estamos apenas a passar por um ciclo de aquecimento e não por uma alteração irreversível?
Aqui há dez anos, muitas pessoas diriam isso com convicção. Agora há um conjunto de factos que fazem suspeitar que isto não é verdade. Primeiro, a composição atmosférica não está a oscilar. A concentração, em particular de dióxido de carbono mas também de outros gases com efeito de estufa, tem crescido constantemente e não mostra nenhum sinal de diminuição.
Havendo este crescimento na concentração de gases com efeito de estufa, a consequência mais simples que podemos pensar é que o clima vai aquecer. Outro facto é o de que os últimos dez anos concentram praticamente todos os anos mais quentes do último século.
E isso não pode ser uma variação natural do clima?
Há estimativas que indicam que não houve nenhuma variação deste tipo nos últimos mil anos. Isto é um facto que, neste momento, é difícil de contestar.
É um exagero dizer que uma onda de calor como a do Verão de 2003 é um indicador das alterações climáticas?
É seguramente um exagero, a partir de um episódio, concluir imediatamente que estamos em fase de alterações climáticas. Mas quando nós temos muitos episódios em quinze anos seguidos, então começamos a pensar provavelmente que as alterações climáticas estão aí.
E para Portugal há alguma indicação neste sentido? Por exemplo, de que é maior a frequência de eventos meteorológicos extremos?
Penso que não existe um estudo muito claro em relação a isto. Há um sobre a evolução de indicadores de seca que parece indicar que as últimas décadas tiveram uma frequência de seca de Inverno mais alta. Em relação a cheias e tempestades, eu penso que não existe nada de muito credível neste momento para Portugal. Aliás, mesmo para o mundo existe alguma incerteza sobre isto.
É claro que há algumas ideias que podem ser consistentes com isto. Uma consequência possível do aquecimento global é que o ciclo da água se torna mais intenso num mundo mais quente. Se temos mais água na atmosfera, é provável que tenhamos mais tempestades. A água é aquilo que põe a máquina climática a andar.
O projecto SIAM aponta para importantes alterações climáticas no país. Que alterações são estas?
Os cenários de mudança global produzidos por qualquer modelo disponível neste momento indicam aquecimentos muito significativos nas próximas décadas, que, no caso da Península Ibérica, podem chegar a sete ou oito graus para a temperatura de Verão. No que se refere à precitipação, há sempre mais incerteza.
Mesmo na previsão do tempo para amanhã, é mais fácil prever a variação da temperatura do que prever a chuva que vai acontecer. Em geral, os modelos apontam para a redução da precipitação no Sul da Europa, não só em Portugal. O que os cenários propõem é um Inverno mais curto, com menos chuva na Primavera e no Outono, e menos precipitação total também.
Até que ponto se pode confiar nestes cenários? Esta é a principal crítica dos Estados Unidos...
O objectivo deste tipo de estudos não é tanto prever o que é que vai ser o clima no fim do século XX, mas é ver quais são os riscos que corremos, se não fizermos nada em relação à situação actual. Não podemos emitir gases com efeito de estufa sem limite. Temos de ter cuidado.
Provavelmente, o Governo americano só vai fazer alguma coisa quando os dados observados reais forem de tal forma drásticos que eles sintam que têm de fazer alguma coisa.
Qual é o aspecto mais sensível de adaptação de Portugal às alterações climáticas?
A variável mais importante nisto das alterações climáticas é provavelmente a água. O problema dos recursos hídricos em Portugal pode tornar-se muito complicado num cenário de aquecimento global.
Até que ponto o país está bem apetrechado para acompanhar a evolução do clima?
Em termos de monitorização climática, Portugal não está muito bem apetrechado. Houve um desinvestimento nas estruturas do Estado que fazem este acompanhamento, em particular no Instituto de Meteorologia.
O que falta? Equipamentos?
No caso do Instituto de Meteorologia, eu diria que o grande problema é a falta de pessoas. O Estado precisa de ter cientistas a trabalhar a tempo inteiro sobre este tipo de assuntos. E estes assuntos não devem ser tratados unicamente no contexto universitário.
Se o Protocolo de Quioto for cumprido, até que ponto vai ajudar no combate às alterações climáticas?
Em termos de emissões [de gases com efeito de estufa], o protocolo não vai resolver nenhum problema. Em termos políticos, é um sinal muito importante. O Protocolo de Quioto é só um primeiro passo; do ponto de vista técnico, é claramente insuficiente. Consoante aquilo que fizer e que outros protocolos que vão ter de vir a seguir a Quioto fizerem, nós vamos estabilizar [a concentração de gases com efeito de estufa] a níveis diferentes. Isto vai implicar climas diferentes.
Que o clima vai ser diferente no futuro é então um ponto pacífico?
O clima vai ser diferente. O objectivo das pessoas que se preocupam com isto é que ele seja toleravelmente diferente.
A Reforma Curricular e o "Choque Tecnológico" Por Lucinda Santos
Público
Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
O início do ano lectivo foi perturbado pela colocação tardia de milhares de professores. De acordo com alguns meios de comunicação social, um só homem (...) resolveu num ápice o problema da colocação de professores.
(...) Na 5 de Outubro, igualmente um só homem cortou e costurou a revisão curricular do ensino secundário, herdada do Governo PS, e concebeu a nova reforma curricular, que está a ser concretizada no corrente ano lectivo. Não foi um especialista de educação que desenvolveu o processo e a sua atitude autista levou-o a não considerar opiniões mais conhecedoras, o que conduziu a que as matrizes curriculares dos cursos, designadamente das áreas das ciências e da tecnologia, tenham saído muito desfasadas das reais necessidades da preparação dos jovens quer para a vida profissional, quer para o prosseguimento de estudos.
Como se compreende que o curso tecnológico de Ordenamento do Território e Ambiente, que visa formar técnicos do Ambiente, não inclua na matriz curricular nenhuma disciplina de Química? Como pode um aluno terminar um curso de Ciências e Tecnologias sem nunca ter tido Física e Química? O mesmo se passa com a Biologia e a Geologia. E pasme-se com a extinção de cursos como o tecnológico de Química e o de Mecânica!
(...) Como é possível que futuros técnicos das áreas da Electricidade, Electrónica, Construção Civil e Informática tenham no 10º ano de escolaridade três horas de Filosofia por semana e apenas 90 minutos de Física e Química? (...) A Física é uma disciplina científica estruturante para as disciplinas técnicas das áreas de Electricidade, Electrónica, Informática e Construção Civil. Esta reforma curricular tem subjacente uma concepção de cultura bafienta e retrógrada que não considera a ciência e as suas aplicações como parte da cultura da humanidade.
E que dizer do peso que se dá à Língua Estrangeira nos cursos tecnológicos do ensino recorrente? Numa era de globalização e mobilidade, em que os técnicos têm que contactar com especialistas de outros países, participar em cursos de formação no estrangeiro, actualizar-se, lendo materiais escritos noutro idioma (normalmente o inglês), como se justificam 90 minutos semanais da Língua Estrangeira"versus" 180 em Filosofia?
E tudo isto porque o Ministério da Educação resolveu instituir o exame de Filosofia como obrigatório para os alunos do ensino recorrente que pretendam prosseguir estudos. No entanto, não terá articulado esta sua decisão com as exigências do ensino superior, pois não parece credível que, por exemplo, o Instituto Superior Técnico exija o exame de Filosofia, em vez do exame de Física a um aluno de um curso tecnológico que queira seguir Engenharia.
Este desenho curricular não prepara os alunos nem para o prosseguimento de estudos, nem para o mercado do trabalho. Que vão fazer estes técnicos, no futuro, com este défice de competências científicas e técnicas? Recitar Kant quando colocados perante um problema técnico que não têm bases para resolver? (...)
O sr. Presidente da República há muito tem vindo a alertar para a necessidade de se investir fortemente na educação e investigação, nomeadamente nas áreas da ciência e tecnologia, para Portugal vencer o desafio do desenvolvimento económico e social. Infelizmente, o apelo do sr. Presidente da República não fez eco no Ministério da Educação.
Em período de campanha eleitoral todos os partidos inscrevem a educação/formação como uma área de actuação prioritária. O Partido Socialista preconiza até um "choque tecnológico". Contudo, não é com esta reforma curricular que vai dispor de técnicos para concretizar esse ambicioso projecto!
Lucinda Santos
Almada
Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
O início do ano lectivo foi perturbado pela colocação tardia de milhares de professores. De acordo com alguns meios de comunicação social, um só homem (...) resolveu num ápice o problema da colocação de professores.
(...) Na 5 de Outubro, igualmente um só homem cortou e costurou a revisão curricular do ensino secundário, herdada do Governo PS, e concebeu a nova reforma curricular, que está a ser concretizada no corrente ano lectivo. Não foi um especialista de educação que desenvolveu o processo e a sua atitude autista levou-o a não considerar opiniões mais conhecedoras, o que conduziu a que as matrizes curriculares dos cursos, designadamente das áreas das ciências e da tecnologia, tenham saído muito desfasadas das reais necessidades da preparação dos jovens quer para a vida profissional, quer para o prosseguimento de estudos.
Como se compreende que o curso tecnológico de Ordenamento do Território e Ambiente, que visa formar técnicos do Ambiente, não inclua na matriz curricular nenhuma disciplina de Química? Como pode um aluno terminar um curso de Ciências e Tecnologias sem nunca ter tido Física e Química? O mesmo se passa com a Biologia e a Geologia. E pasme-se com a extinção de cursos como o tecnológico de Química e o de Mecânica!
(...) Como é possível que futuros técnicos das áreas da Electricidade, Electrónica, Construção Civil e Informática tenham no 10º ano de escolaridade três horas de Filosofia por semana e apenas 90 minutos de Física e Química? (...) A Física é uma disciplina científica estruturante para as disciplinas técnicas das áreas de Electricidade, Electrónica, Informática e Construção Civil. Esta reforma curricular tem subjacente uma concepção de cultura bafienta e retrógrada que não considera a ciência e as suas aplicações como parte da cultura da humanidade.
E que dizer do peso que se dá à Língua Estrangeira nos cursos tecnológicos do ensino recorrente? Numa era de globalização e mobilidade, em que os técnicos têm que contactar com especialistas de outros países, participar em cursos de formação no estrangeiro, actualizar-se, lendo materiais escritos noutro idioma (normalmente o inglês), como se justificam 90 minutos semanais da Língua Estrangeira"versus" 180 em Filosofia?
E tudo isto porque o Ministério da Educação resolveu instituir o exame de Filosofia como obrigatório para os alunos do ensino recorrente que pretendam prosseguir estudos. No entanto, não terá articulado esta sua decisão com as exigências do ensino superior, pois não parece credível que, por exemplo, o Instituto Superior Técnico exija o exame de Filosofia, em vez do exame de Física a um aluno de um curso tecnológico que queira seguir Engenharia.
Este desenho curricular não prepara os alunos nem para o prosseguimento de estudos, nem para o mercado do trabalho. Que vão fazer estes técnicos, no futuro, com este défice de competências científicas e técnicas? Recitar Kant quando colocados perante um problema técnico que não têm bases para resolver? (...)
O sr. Presidente da República há muito tem vindo a alertar para a necessidade de se investir fortemente na educação e investigação, nomeadamente nas áreas da ciência e tecnologia, para Portugal vencer o desafio do desenvolvimento económico e social. Infelizmente, o apelo do sr. Presidente da República não fez eco no Ministério da Educação.
Em período de campanha eleitoral todos os partidos inscrevem a educação/formação como uma área de actuação prioritária. O Partido Socialista preconiza até um "choque tecnológico". Contudo, não é com esta reforma curricular que vai dispor de técnicos para concretizar esse ambicioso projecto!
Lucinda Santos
Almada
Em Defesa da Ciência e da Tecnologia Por JOSÉ MARIANO GAGO
Público
Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
Ao ministro da Presidência coube vir a terreiro contra o plano de desenvolvimento científico, tecnológico e educativo que o PS se propõe executar. Segundo ele, o plano tecnológico do PS não serve. Ou porque já está a ser aplicado ou porque pressupõe acção e mais investimento do Estado a favor da ciência e da tecnologia, o que estaria mal: isso caberia ao mercado. Pelo meio, enalteceu a obra própria e denegriu a dos outros: antes de nós o deserto, depois de nós o dilúvio.
Portugal estava (em 1999) entre os primeiros países europeus a ligar todas as escolas à internet. O governo do PS não apenas lançou a política para a sociedade da informação em Portugal, a internet nas escolas, as cidadas e regiões digitais, os espaços internet, a iniciativa para os cidadãos com necessidades especiais, o programa operacional para o sociedade de informação, a iniciativa internet, como lançou a própria iniciativa europeia nesta matéria. O programa eEurope foi desenhado em Lisboa, negociado na Europa pelo governo do PS e aprovado durante a presidência portuguesa. Agora, estamos na cauda dos actuais indicadores de progresso e a Europa olha-nos com complacência: será o mesmo país?
Este governo juntou a ciência e a tecnologia ao ensino superior, e separou as tecnologias de informação a que inicialmente juntou a inovação. Isolada junto da presidência do Conselho de Ministros, essa componente crítica da política tecnológica, a das tecnologias de informação e comunicação e da sociedade da informação, perdeu rumo e capacidade. Durante quase dois anos parou programas e projectos e deixou de cumprir o contratado, designadamente com os melhores laboratórios de investigação e empresas desta área. Mas desdobrou-se em anúncios, planos de acção, palavras de ordem. O programa do PS propõe-se reforçar o que está bem, corrigir o negativo, generalizar o uso da internet na educação, abrir actividades novas, acelerar a desburocratização da administração e o acesso online aos serviços. Lança, por exemplo, o balcão único nas relações do Estado com os cidadãos e as empresas: competirá ao serviço público apropriado (e não ao utilizador) obter de outros serviços públicos os documentos e informações eventualmente necessários.
A política educativa esteve contra a ciência e a tecnologia. A reforma do ensino secundário extingiu laboratórios e actividade experimental. Tentou matar o Ciência Viva. O programa do PS, pelo contrário, torna obrigatório o ensino experimental, combate o insucesso escolar, duplica os inscritos em cursos profissionais e tecnológicos, reforça e desgovernamentaliza as instituições científicas e a sua avaliação. A política da ciência, fechada no ensino superior, tornou-se corporativa e isolou-se das outras políticas públicas. A política para o ensino superior, separada dos restantes sectores da educação e da formação, tornou-se alheia aos desafios da qualificação e da formação de activos. Retirou-se autonomia e parou-se a renovação dos laboratórios do Estado.
O programa do PS trata do apoio à ciência e do estímulo à inovação, especialmente a baseada em desenvolvimento tecnológico. Não opõe, antes alia a investigação nas universidades e laboratórios públicos e a que se desenvolve nas empresas. Defende todas as ciências, das engenharias às ciências humanas, avaliadas de forma internacional, independente e pública e promove a cultura científica. Anuncia medidas regulamentares que podem abrir mercados para novos produtos. Apoia a criação de novas empresas baseadas em resultados de investigação. Propõe incentivos internacionalmente competitivos à investigação e desenvolvimento (I&D) empresarial.
Reconhece agora o governo que fez mal em acabar com o regime de incentivos fiscais à investigação empresarial mas estar pronto a rever a situação que diz motivada pelo deficit das contas públicas. A desculpa não é verdadeira. Com mais despesa, deu às empresas não inovadoras o que deveria ter reservado às mais inovadoras. Vangloria-se que Portugal melhorou na Europa da inovação. Infelizmente isso respeita a indicadores de crescimento até 2002, ou seja, ao governo do PS.
O PSD apresentou ao eleitorado dois programas diferentes com poucos dias de intervalo. No primeiro, o esforço público em I&D deveria atingir 1% do PIB em 2010. Fazia sentido: é a meta europeia que o PS se propõe atingir no final da legislatura. Mas poucos dias depois, o PSD substituia o seu programa. Propõe-se agora "atingir 1/3 de 2% do PIB em 2010", quase o valor actual.A garantia do PSD é a estagnação do esforço público na ciência. A proposta do PS é duplicar esse esforço. A diferença não podia ser mais clara.
O PSD entende que o Estado não deve criar emprego científico: desculpa-se com as empresas. Mas é preciso qualificar laboratórios e universidades, hospitais, orgãos reguladores, bibliotecas e arquivos, e a administração. O PS anuncia a criação de mais 1000 lugares de investigadores, por contrapartida da extinção de lugares noutros sectores. Também se compromete a estimular a absorção de investigadores pelas empresas, reduzida pelo governo. O esforço público em I&D, pelas ideias que gera, pelos recursos que forma, é um poderoso estímulo à inovação empresarial e ao desenvolvimento social. Como em todo o mundo, foi assim em Portugal entre 1985 e 1993 e ainda mais entre 1995 e 2001.
Em matéria de gestão de riscos públicos e de segurança, o governo actual não parece entender o que fazer. O conhecimento científico e a capacidade técnica devem também proteger as pessoas, antecipar riscos e catástrofes, salvar vidas, ajudar a tomar decisões certas. Esse é um dos objectivos inscritos no plano de desenvolvimento tecnológico apresentado pelo PS. A diferença é clara.
O plano de desenvolvimento que o PS propõe é uma aposta de enorme exigência e responsabilidade, um verdadeiro contrato de modernização. Afirma um compromisso político de tal importância e gravidade que se espera das oposições tão só o anúncio sereno da vigilância no seu cumprimento.
Não foi isso que lemos até agora, ao menos do PSD. Mas nunca é tarde.
Membro do Conselho Coordenador do Fórum Novas Fronteiras que colaborou na preparação do Programa do PS. Antigo ministro da Ciência e da Tecnologia.
Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
Ao ministro da Presidência coube vir a terreiro contra o plano de desenvolvimento científico, tecnológico e educativo que o PS se propõe executar. Segundo ele, o plano tecnológico do PS não serve. Ou porque já está a ser aplicado ou porque pressupõe acção e mais investimento do Estado a favor da ciência e da tecnologia, o que estaria mal: isso caberia ao mercado. Pelo meio, enalteceu a obra própria e denegriu a dos outros: antes de nós o deserto, depois de nós o dilúvio.
Portugal estava (em 1999) entre os primeiros países europeus a ligar todas as escolas à internet. O governo do PS não apenas lançou a política para a sociedade da informação em Portugal, a internet nas escolas, as cidadas e regiões digitais, os espaços internet, a iniciativa para os cidadãos com necessidades especiais, o programa operacional para o sociedade de informação, a iniciativa internet, como lançou a própria iniciativa europeia nesta matéria. O programa eEurope foi desenhado em Lisboa, negociado na Europa pelo governo do PS e aprovado durante a presidência portuguesa. Agora, estamos na cauda dos actuais indicadores de progresso e a Europa olha-nos com complacência: será o mesmo país?
Este governo juntou a ciência e a tecnologia ao ensino superior, e separou as tecnologias de informação a que inicialmente juntou a inovação. Isolada junto da presidência do Conselho de Ministros, essa componente crítica da política tecnológica, a das tecnologias de informação e comunicação e da sociedade da informação, perdeu rumo e capacidade. Durante quase dois anos parou programas e projectos e deixou de cumprir o contratado, designadamente com os melhores laboratórios de investigação e empresas desta área. Mas desdobrou-se em anúncios, planos de acção, palavras de ordem. O programa do PS propõe-se reforçar o que está bem, corrigir o negativo, generalizar o uso da internet na educação, abrir actividades novas, acelerar a desburocratização da administração e o acesso online aos serviços. Lança, por exemplo, o balcão único nas relações do Estado com os cidadãos e as empresas: competirá ao serviço público apropriado (e não ao utilizador) obter de outros serviços públicos os documentos e informações eventualmente necessários.
A política educativa esteve contra a ciência e a tecnologia. A reforma do ensino secundário extingiu laboratórios e actividade experimental. Tentou matar o Ciência Viva. O programa do PS, pelo contrário, torna obrigatório o ensino experimental, combate o insucesso escolar, duplica os inscritos em cursos profissionais e tecnológicos, reforça e desgovernamentaliza as instituições científicas e a sua avaliação. A política da ciência, fechada no ensino superior, tornou-se corporativa e isolou-se das outras políticas públicas. A política para o ensino superior, separada dos restantes sectores da educação e da formação, tornou-se alheia aos desafios da qualificação e da formação de activos. Retirou-se autonomia e parou-se a renovação dos laboratórios do Estado.
O programa do PS trata do apoio à ciência e do estímulo à inovação, especialmente a baseada em desenvolvimento tecnológico. Não opõe, antes alia a investigação nas universidades e laboratórios públicos e a que se desenvolve nas empresas. Defende todas as ciências, das engenharias às ciências humanas, avaliadas de forma internacional, independente e pública e promove a cultura científica. Anuncia medidas regulamentares que podem abrir mercados para novos produtos. Apoia a criação de novas empresas baseadas em resultados de investigação. Propõe incentivos internacionalmente competitivos à investigação e desenvolvimento (I&D) empresarial.
Reconhece agora o governo que fez mal em acabar com o regime de incentivos fiscais à investigação empresarial mas estar pronto a rever a situação que diz motivada pelo deficit das contas públicas. A desculpa não é verdadeira. Com mais despesa, deu às empresas não inovadoras o que deveria ter reservado às mais inovadoras. Vangloria-se que Portugal melhorou na Europa da inovação. Infelizmente isso respeita a indicadores de crescimento até 2002, ou seja, ao governo do PS.
O PSD apresentou ao eleitorado dois programas diferentes com poucos dias de intervalo. No primeiro, o esforço público em I&D deveria atingir 1% do PIB em 2010. Fazia sentido: é a meta europeia que o PS se propõe atingir no final da legislatura. Mas poucos dias depois, o PSD substituia o seu programa. Propõe-se agora "atingir 1/3 de 2% do PIB em 2010", quase o valor actual.A garantia do PSD é a estagnação do esforço público na ciência. A proposta do PS é duplicar esse esforço. A diferença não podia ser mais clara.
O PSD entende que o Estado não deve criar emprego científico: desculpa-se com as empresas. Mas é preciso qualificar laboratórios e universidades, hospitais, orgãos reguladores, bibliotecas e arquivos, e a administração. O PS anuncia a criação de mais 1000 lugares de investigadores, por contrapartida da extinção de lugares noutros sectores. Também se compromete a estimular a absorção de investigadores pelas empresas, reduzida pelo governo. O esforço público em I&D, pelas ideias que gera, pelos recursos que forma, é um poderoso estímulo à inovação empresarial e ao desenvolvimento social. Como em todo o mundo, foi assim em Portugal entre 1985 e 1993 e ainda mais entre 1995 e 2001.
Em matéria de gestão de riscos públicos e de segurança, o governo actual não parece entender o que fazer. O conhecimento científico e a capacidade técnica devem também proteger as pessoas, antecipar riscos e catástrofes, salvar vidas, ajudar a tomar decisões certas. Esse é um dos objectivos inscritos no plano de desenvolvimento tecnológico apresentado pelo PS. A diferença é clara.
O plano de desenvolvimento que o PS propõe é uma aposta de enorme exigência e responsabilidade, um verdadeiro contrato de modernização. Afirma um compromisso político de tal importância e gravidade que se espera das oposições tão só o anúncio sereno da vigilância no seu cumprimento.
Não foi isso que lemos até agora, ao menos do PSD. Mas nunca é tarde.
Membro do Conselho Coordenador do Fórum Novas Fronteiras que colaborou na preparação do Programa do PS. Antigo ministro da Ciência e da Tecnologia.
A Educação em Campanha Por ANTÓNIO BARRETO
Público
Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
É impossível saber quantos eleitores terão lido um programa eleitoral por inteiro. Não creio que tenham sido mil. Muito menos quantos os tenham lido todos ou em grande parte, a fim de comparar. Umas dezenas, talvez. Esses livrinhos, cujo volume oscila entre 130 e 185 páginas de escrita compacta, têm tiragens de poucos milhares de exemplares, talvez apenas umas largas centenas. Áridos, os textos servem mais para garantir que existe um programa do que para comprometer. Neles se promete tudo e nada e o seu contrário, mundos e fundos, a felicidade e a fortuna. Nunca, que se saiba, um partido fez as contas e verificou, no fim da sua elaboração, quanto custaria fazer "aquilo". Nem sabem onde ir buscar os meios financeiros, materiais, técnicos e humanos para dar conta do recado. De qualquer maneira, não é isso que interessa. O partido que ganhar as eleições faz depois um programa de governo assaz diferente do eleitoral: com realismo, baixará os decibéis das suas disparatadas proclamações. Quando chegar a vez do orçamento de Estado, então sim, o partido do governo descerá sobre terra. Todos conhecemos o resto da história.
Os programas para a educação constituem desenvolvido capítulo desta literatura. Tudo somado (educação, desporto escolar, ciência, acção social, juventude e cultura), variam entre 25 e 45 páginas. Todos estão preocupados, garantem que a educação é essencial e prioritária e prometem obras mirabolantes. Deixo de lado o mau português, a linguagem de pedra e o tom redentor. Têm de comum e sem excepção os grandes objectivos: combater o insucesso e o abandono, formar a juventude, aumentar a população do secundário e do superior, aumentar o número de professores, expandir a rede escolar, aumentar as bolsas e os subsídios, desenvolver a formação profissional, multiplicar os laboratórios dedicados à ciência, investir nas novas tecnologias, alargar o pré-escolar, apoiar os deficientes, integrar os imigrados, retomar a educação e a alfabetização de adultos, abrir as escolas e as universidades à noite, estabelecer a escolaridade obrigatória de 12 anos, manter todos os jovens até aos dezoito anos na escola, prestar atenção ao português e à matemática, introduzir o inglês no primeiro ou no terceiro do básico, aumentar a carga horária dos alunos, aperfeiçoar o sistema de colocação de professores e estabilizar o corpo docente das escolas. Para a totalidade destes objectivos, não dizem quanto custa, quanto tempo demora, com que metas, com quem nem como. Fiz uns breves cálculos indicativos. Nenhum dos cinco programas analisados custaria, por ano, menos de 300 milhões de contos (mil e quinhentos milhões de euros) a mais, num orçamento que é já de mais de mil e duzentos milhões de contos (seis mil milhões de euros). Como este dinheiro não existe, como o défice público é hoje perigoso, como não há perspectivas de o crescimento económico futuro imediato ser tal que esses recursos surjam e como os outros capítulos (saúde, justiça, obras públicas, autarquias, segurança social) gastam mais ou menos na mesma proporção, estamos entendidos.
Quer isto dizer que não há diferenças? Que são todos iguais? Não. Essa foi, devo confessar, a minha surpresa. Explícita ou disfarçadamente, os partidos mostram as suas convicções políticas, ideológicas e doutrinárias. Esta é a melhor parte dos programas. Ao menos, aí, estão a falar a sério. Os programas dos três pequenos são os mais conseguidos, isto é, mais claramente comprometidos com um modelo e uma filosofia política. O do Bloco de Esquerda é caro, radical, subversivo, com pulsão totalitária, uniformizador, politicamente correcto, virtuoso, moderno, fracturante e multicultural. O do PCP é caro, nacionalista, burocrático, de inspiração soviética, obsoleto, conservador, demagógico, unificado e dirigista. Ambos pretendem descaradamente liquidar os sectores privados, prometendo ao mesmo tempo doze a catorze anos de escolaridade universal e gratuita, além de todo o ensino superior igualmente gratuito. O do CDS é caro, reaccionário, vago, repressivo, socialmente desigual e de prioridade absoluta ao sector privado. Promete que a intervenção pública deva ser apenas subsidiária e confia sobretudo no aumento das cargas horárias, na certeza de que deve haver exames nacionais quatro vezes em doze anos, além de provas nacionais de aferição todos os anos.
Os programas dos dois grandes são menos interessantes, mas merecem mais atenção. São mais parecidos. Mais próximos do que existe actualmente, isto é, mais imobilistas e menos propensos a correr riscos de ruptura. Mais caros, muito mais caros ainda. Mais confusos na doutrina, dado que querem tudo e não parecem capazes de escolher. Finalmente, é de um destes que sairá o futuro governo e respectivo ministro, que, espero, rasgue o programa do seu partido dez minutos depois de tomar posse.
O PSD quer fazer coexistir o público e o privado, com preferência para o privado, sem atentar contra o público. O PS quer fazer coexistir o privado e o público, com preferência para o público, sem atentar contra o privado. Ambos desejam mais participação das autarquias, dos interesses e das famílias na gestão das escolas, sem no entanto prever as respectivas responsabilidades. Mas enquanto o PS se deixa encantar pela desastrada "gestão democrática" actual, no que se junta ao PCP e ao Bloco, já o PSD abre as portas aos gestores profissionais para as escolas, sem, todavia, dizer como e quando o fará. Quanto à colocação de professores, surpresa das surpresas, o PS declara-se disponível a fazer experiências de descentralização. No que toca ao recrutamento de professores, nenhum dos dois retira as devidas lições das crises recentes e não abdicam da colocação feita nacionalmente. O PSD pretende manter alguma diferença entre universidades e politécnicos, deixando que uma espécie de colaboração avance e, a prazo, destrua as diferenças; mas o PS é mais desastrado e defende a aproximação entre umas e outros (é menos radical do que o PCP que deseja um sistema único). O PSD é vago no governo das universidades, mas diz procurar novas vias de gestão e responsabilidade. Pelo seu lado, o PS defende, no essencial, o actual sistema dito de gestão democrática, com órgãos eleitos, participação intensa de estudantes e demagogia a jorros. Onde o do PSD é vago e equívoco, o do PS é oportunista e tenta agradar a toda a gente: professores, pais, alunos, autarquias, interesses económicos, sector privado e sector público. Ambos defendem as propinas e os subsídios às instituições privadas, sendo que o PSD gostaria de emagrecer as universidades públicas, enquanto o PS desejaria controlar as privadas.
Gastar menos e gastar melhor? Não recrutar mais professores para um sistema que está a perder dezenas de milhares de alunos todos os anos (por causa da demografia)? Obrigar as escolas e as universidades a prestar contas à sociedade? Quebrar os sistemas fechados que gerem e administram a educação portuguesa a comando do mais nefasto de todos os ministérios? Introduzir as artes em todos os níveis de ensino? Forçar as prescrições? Cessar os regimes de destacamentos, de requisições, de empréstimo aos sindicatos e de horário dito zero de mais de 10.000 professores? Fechar definitivamente as escolas com menos de dez ou quinze alunos? Definir novos modelos de elaboração e distribuição de manuais escolares que retirem estes do autêntico "racket" de editores e professores actualmente em vigor? Liquidar o demagógico e absurdo sistema dito de "gestão democrática" do ensino superior que mais não é do que um sistema de louvor à demagogia e de elogio da preguiça? Devolver as escolas básicas e secundárias às autarquias? Tornar cada escola responsável pelo recrutamento do seu pessoal docente? Permitir que as universidades seleccionem os seus professores e os seus estudantes? Deixar que cada universidade defina o seu modelo e a sua missão? Nada. Não. Nunca. A estas e outras soluções que poderiam realmente mudar o desolador sistema educativo que temos, os dois grandes partidos nada dizem, fogem dos riscos como da pólvora.
Preparemo-nos pois para ver, um dia destes, um ministro saído deste estéril alfobre, do PS ou do PSD, olhar para o programa eleitoral de soslaio, preparar um programa de governo bem intencionado e entregar-se-á nas mãos dos funcionários do ministério e nos braços dos sindicatos de professores, órgãos do mesmo corpo, como se sabe. Que tenha paz, no eterno repouso.
Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
É impossível saber quantos eleitores terão lido um programa eleitoral por inteiro. Não creio que tenham sido mil. Muito menos quantos os tenham lido todos ou em grande parte, a fim de comparar. Umas dezenas, talvez. Esses livrinhos, cujo volume oscila entre 130 e 185 páginas de escrita compacta, têm tiragens de poucos milhares de exemplares, talvez apenas umas largas centenas. Áridos, os textos servem mais para garantir que existe um programa do que para comprometer. Neles se promete tudo e nada e o seu contrário, mundos e fundos, a felicidade e a fortuna. Nunca, que se saiba, um partido fez as contas e verificou, no fim da sua elaboração, quanto custaria fazer "aquilo". Nem sabem onde ir buscar os meios financeiros, materiais, técnicos e humanos para dar conta do recado. De qualquer maneira, não é isso que interessa. O partido que ganhar as eleições faz depois um programa de governo assaz diferente do eleitoral: com realismo, baixará os decibéis das suas disparatadas proclamações. Quando chegar a vez do orçamento de Estado, então sim, o partido do governo descerá sobre terra. Todos conhecemos o resto da história.
Os programas para a educação constituem desenvolvido capítulo desta literatura. Tudo somado (educação, desporto escolar, ciência, acção social, juventude e cultura), variam entre 25 e 45 páginas. Todos estão preocupados, garantem que a educação é essencial e prioritária e prometem obras mirabolantes. Deixo de lado o mau português, a linguagem de pedra e o tom redentor. Têm de comum e sem excepção os grandes objectivos: combater o insucesso e o abandono, formar a juventude, aumentar a população do secundário e do superior, aumentar o número de professores, expandir a rede escolar, aumentar as bolsas e os subsídios, desenvolver a formação profissional, multiplicar os laboratórios dedicados à ciência, investir nas novas tecnologias, alargar o pré-escolar, apoiar os deficientes, integrar os imigrados, retomar a educação e a alfabetização de adultos, abrir as escolas e as universidades à noite, estabelecer a escolaridade obrigatória de 12 anos, manter todos os jovens até aos dezoito anos na escola, prestar atenção ao português e à matemática, introduzir o inglês no primeiro ou no terceiro do básico, aumentar a carga horária dos alunos, aperfeiçoar o sistema de colocação de professores e estabilizar o corpo docente das escolas. Para a totalidade destes objectivos, não dizem quanto custa, quanto tempo demora, com que metas, com quem nem como. Fiz uns breves cálculos indicativos. Nenhum dos cinco programas analisados custaria, por ano, menos de 300 milhões de contos (mil e quinhentos milhões de euros) a mais, num orçamento que é já de mais de mil e duzentos milhões de contos (seis mil milhões de euros). Como este dinheiro não existe, como o défice público é hoje perigoso, como não há perspectivas de o crescimento económico futuro imediato ser tal que esses recursos surjam e como os outros capítulos (saúde, justiça, obras públicas, autarquias, segurança social) gastam mais ou menos na mesma proporção, estamos entendidos.
Quer isto dizer que não há diferenças? Que são todos iguais? Não. Essa foi, devo confessar, a minha surpresa. Explícita ou disfarçadamente, os partidos mostram as suas convicções políticas, ideológicas e doutrinárias. Esta é a melhor parte dos programas. Ao menos, aí, estão a falar a sério. Os programas dos três pequenos são os mais conseguidos, isto é, mais claramente comprometidos com um modelo e uma filosofia política. O do Bloco de Esquerda é caro, radical, subversivo, com pulsão totalitária, uniformizador, politicamente correcto, virtuoso, moderno, fracturante e multicultural. O do PCP é caro, nacionalista, burocrático, de inspiração soviética, obsoleto, conservador, demagógico, unificado e dirigista. Ambos pretendem descaradamente liquidar os sectores privados, prometendo ao mesmo tempo doze a catorze anos de escolaridade universal e gratuita, além de todo o ensino superior igualmente gratuito. O do CDS é caro, reaccionário, vago, repressivo, socialmente desigual e de prioridade absoluta ao sector privado. Promete que a intervenção pública deva ser apenas subsidiária e confia sobretudo no aumento das cargas horárias, na certeza de que deve haver exames nacionais quatro vezes em doze anos, além de provas nacionais de aferição todos os anos.
Os programas dos dois grandes são menos interessantes, mas merecem mais atenção. São mais parecidos. Mais próximos do que existe actualmente, isto é, mais imobilistas e menos propensos a correr riscos de ruptura. Mais caros, muito mais caros ainda. Mais confusos na doutrina, dado que querem tudo e não parecem capazes de escolher. Finalmente, é de um destes que sairá o futuro governo e respectivo ministro, que, espero, rasgue o programa do seu partido dez minutos depois de tomar posse.
O PSD quer fazer coexistir o público e o privado, com preferência para o privado, sem atentar contra o público. O PS quer fazer coexistir o privado e o público, com preferência para o público, sem atentar contra o privado. Ambos desejam mais participação das autarquias, dos interesses e das famílias na gestão das escolas, sem no entanto prever as respectivas responsabilidades. Mas enquanto o PS se deixa encantar pela desastrada "gestão democrática" actual, no que se junta ao PCP e ao Bloco, já o PSD abre as portas aos gestores profissionais para as escolas, sem, todavia, dizer como e quando o fará. Quanto à colocação de professores, surpresa das surpresas, o PS declara-se disponível a fazer experiências de descentralização. No que toca ao recrutamento de professores, nenhum dos dois retira as devidas lições das crises recentes e não abdicam da colocação feita nacionalmente. O PSD pretende manter alguma diferença entre universidades e politécnicos, deixando que uma espécie de colaboração avance e, a prazo, destrua as diferenças; mas o PS é mais desastrado e defende a aproximação entre umas e outros (é menos radical do que o PCP que deseja um sistema único). O PSD é vago no governo das universidades, mas diz procurar novas vias de gestão e responsabilidade. Pelo seu lado, o PS defende, no essencial, o actual sistema dito de gestão democrática, com órgãos eleitos, participação intensa de estudantes e demagogia a jorros. Onde o do PSD é vago e equívoco, o do PS é oportunista e tenta agradar a toda a gente: professores, pais, alunos, autarquias, interesses económicos, sector privado e sector público. Ambos defendem as propinas e os subsídios às instituições privadas, sendo que o PSD gostaria de emagrecer as universidades públicas, enquanto o PS desejaria controlar as privadas.
Gastar menos e gastar melhor? Não recrutar mais professores para um sistema que está a perder dezenas de milhares de alunos todos os anos (por causa da demografia)? Obrigar as escolas e as universidades a prestar contas à sociedade? Quebrar os sistemas fechados que gerem e administram a educação portuguesa a comando do mais nefasto de todos os ministérios? Introduzir as artes em todos os níveis de ensino? Forçar as prescrições? Cessar os regimes de destacamentos, de requisições, de empréstimo aos sindicatos e de horário dito zero de mais de 10.000 professores? Fechar definitivamente as escolas com menos de dez ou quinze alunos? Definir novos modelos de elaboração e distribuição de manuais escolares que retirem estes do autêntico "racket" de editores e professores actualmente em vigor? Liquidar o demagógico e absurdo sistema dito de "gestão democrática" do ensino superior que mais não é do que um sistema de louvor à demagogia e de elogio da preguiça? Devolver as escolas básicas e secundárias às autarquias? Tornar cada escola responsável pelo recrutamento do seu pessoal docente? Permitir que as universidades seleccionem os seus professores e os seus estudantes? Deixar que cada universidade defina o seu modelo e a sua missão? Nada. Não. Nunca. A estas e outras soluções que poderiam realmente mudar o desolador sistema educativo que temos, os dois grandes partidos nada dizem, fogem dos riscos como da pólvora.
Preparemo-nos pois para ver, um dia destes, um ministro saído deste estéril alfobre, do PS ou do PSD, olhar para o programa eleitoral de soslaio, preparar um programa de governo bem intencionado e entregar-se-á nas mãos dos funcionários do ministério e nos braços dos sindicatos de professores, órgãos do mesmo corpo, como se sabe. Que tenha paz, no eterno repouso.
Thursday, February 10, 2005
HÁ VIDA DEPOIS DE 20 DE FEVEREIRO (3) MEMÓRIA CURTA - "TUDO NA VIDA SE RENOVA", JPP
http://www.abrupto.blogspot.com/
10 Fev 2005
14:05 (JPP)
HÁ VIDA DEPOIS DE 20 DE FEVEREIRO (3) MEMÓRIA CURTA - "TUDO NA VIDA SE RENOVA"
Para os que agora criticam quem critica Santana Lopes convém não ter memória curta. Em Abril de 2000, bem dentro deste ciclo político pós-Cavaco, Santana Lopes dava uma entrevista ao Expresso em que afirmava, preto no branco, a necessidade de criar outro partido e fazia um ultimatum ao PSD: ou mudava o PSD ou ele próprio mudava de partido. Nunca nenhum dos seus opositores actuais afirmou que iria criar outro partido contra o PSD. Toda a entrevista, lembrada pelo Pula, Pula Pulga, é típica do estilo egocentrista, errático e confuso de Santana Lopes, que sempre se pôde perceber, mas a que muitos foram cegos. Esta entrevista não é a única em que o tema da criação de um novo partido é nomeado. Fica aqui como documento a lembrar em 20 de Fevereiro a propósito das "facadas" nas costas.
opção inadiável de Santana
(...)
PEDRO Santana Lopes considera chegado o momento da «clarificação definitiva» no PSD e lança um ultimato: ou o partido muda ou muda ele de partido. Numa extensa entrevista ao EXPRESSO, que será publicada na Revista da próxima semana, o presidente da Câmara da Figueira da Foz volta a agitar as pantanosas águas do maior partido da oposição, não escondendo a impaciência com a situação que resultou do Congresso de Viseu e exigindo que se acabe «com a hipocrisia: todos falam baixo na mudança da liderança do PPD/PSD e, depois, ninguém, ou poucos, fala alto».
Garantindo que não está a defender a demissão de Durão Barroso, admite, no entanto, que não acredita no seu partido com o actual líder: «Conheço-o há muitos anos e não esperava que as coisas corressem tão mal como correram», confessa, remetendo Barroso para o pretérito e assestando as suas baterias em Marcelo Rebelo de Sousa - a quem atribui intenções de voltar a candidatar-se à liderança do PSD e, por isso, não lhe poupa críticas.
Contra a frente «anti-santanista»
Confessando-se estupefacto perante os rumores que referem a constituição de uma «frente-anti-santanista» destinada a evitar que ele chegue à presidência do partido - «Isto atinge as raias do ridículo!», comenta - Santana Lopes tranquiliza os seus adversários: «Quero dizer-lhes que não se preocupem, porque não vou fazer nada por isso». O seu plano, assegura, não tem nada de conspirativo: «A direcção do partido e o partido é que têm de promover, se quiserem, as medidas necessárias para mudar de vida. Se o fizerem, muito bem. Se entenderem que querem continuar com uma liderança do tipo da de Durão Barroso, eu discordo, mas respeito».
O primeiro passo, propõe, é um referendo interno sobre as eleições directas que o congresso de Viseu não aprovou: «Agora é o tempo certo para, com calma e serenidade, fazer o referendo sobre as directas», é o convite que endereça aos dirigentes do partido, garantindo-lhes: «Não faço campanha nem a favor nem contra, só quero saber se o partido quer ou não essas eleições directas, quer ou não mudar de vida, quer ou não deixar de funcionar em circuito fechado». O seu próprio destino, afiança, ficará de uma vez clarificado a partir daí: «Se o partido se começar a encaminhar no sentido das teses que defendo, terão de ser outros a escolher o novo caminho». Se assim não suceder, não hesitará: «Partirei à procura de uma alternativa por caminhos diferentes».
Um novo partido «é inevitável»
O autarca da Figueira considera inadiável a reorganização do centro-direita e está convencido de que esse processo conduzirá inevitavelmente a um novo partido. Se será ele ou não a liderar essa nova formação política, é uma questão cuja resposta deixa nas mãos dos seus companheiros sociais-democratas. O eterno candidato à liderança do PSD explica em detalhe as razões que o levam a rejeitar liminarmente tal estatuto e afirma-se «saturado»: «O PPD/PSD tem de mudar de vida», exige, num tom definitivo que manteve ao longo das mais de três horas de conversa e que só abrandou por uma ou duas vezes ao admitir que a sua indisponibilidade para voltar a candidatar-se à liderança cederia a um sério apelo dos militantes do seu partido em que, todavia, diz não acreditar.
Impaciente, o presidente da Câmara da Figueira da Foz esclarece que «chegou o momento de fazer a reorganização do centro-direita em Portugal». No seu entender, é necessário «construir uma alternativa», dado que «o centro-direita está bloqueado, objectiva e subjectivamente. Objectivamente, porque não há nenhum ponto de convergência entre os vários partidos desse espaço. Subjectivamente, porque, com as lideranças do PPD/PSD e do CDS-PP, essa convergência não é possível». Tal reorganização, admite, acabará por dar um só efeito: «Estou convencido de que é inevitável um novo partido. Resta saber quem o vai fazer».
Recusando que as suas palavras sejam interpretadas como «uma heterodoxia lesa-pátria ou lesa-partido», desdramatiza: «Tudo na vida se renova - as células do organismo humano estão em renovação permanente. E, no centro-direita, chegou a hora de mudar».
Pronto para uma alternativa
Reconhecendo que a política faz parte da sua vida, e que não saberia viver sem ela, recusa ficar de braços cruzados: «Sei que irei contribuir para a construção da alternativa ao PS. A questão está em saber se, de facto, será no meu partido ou não». Uma pergunta que quer ver respondida quanto antes: «Acho que é bom para o partido e para mim esclarecer isto». Por ele, não tem dúvidas: «Quero construir essa alternativa de centro-direita. Acredito que tenho condições para o fazer».
Uma alternativa que não significa necessariamente uma aliança com o CDS/PP para as legislativas - até porque, no seu entendimento, «se o PPD/PSD for pelo caminho que idealizo, pode ambicionar ganhar sozinho» -, mas que começa por vários acordos nas autárquicas que possibilitem uma mudança da realidade política. É aqui, sublinha, que «há uma necessidade de desbloquear caminhos que estão tapados», porque o que acontece hoje «é que o PPD/PSD e o CDS/PP são oposição um ao outro».
«Este relacionamento entre Durão e Portas é absolutamente inconcebível», condena, acrescentando que «um líder dum partido, por muitos problemas pessoais que tenha com outro, não pode dizer que nunca se sentará à mesa com ele, porque isso é bloquear soluções de futuro que podem ser necessárias». Uma relação diametralmente oposta à sua, que é fácil de perceber pelo que diz de Portas: «Não precisamos de conversar para nos entendermos ou desentendermos. Conhecemo-nos há muitos anos».
CRISTINA FIGUEIREDO e MÁRIO RAMIRES
10 Fev 2005
14:05 (JPP)
HÁ VIDA DEPOIS DE 20 DE FEVEREIRO (3) MEMÓRIA CURTA - "TUDO NA VIDA SE RENOVA"
Para os que agora criticam quem critica Santana Lopes convém não ter memória curta. Em Abril de 2000, bem dentro deste ciclo político pós-Cavaco, Santana Lopes dava uma entrevista ao Expresso em que afirmava, preto no branco, a necessidade de criar outro partido e fazia um ultimatum ao PSD: ou mudava o PSD ou ele próprio mudava de partido. Nunca nenhum dos seus opositores actuais afirmou que iria criar outro partido contra o PSD. Toda a entrevista, lembrada pelo Pula, Pula Pulga, é típica do estilo egocentrista, errático e confuso de Santana Lopes, que sempre se pôde perceber, mas a que muitos foram cegos. Esta entrevista não é a única em que o tema da criação de um novo partido é nomeado. Fica aqui como documento a lembrar em 20 de Fevereiro a propósito das "facadas" nas costas.
opção inadiável de Santana
(...)
PEDRO Santana Lopes considera chegado o momento da «clarificação definitiva» no PSD e lança um ultimato: ou o partido muda ou muda ele de partido. Numa extensa entrevista ao EXPRESSO, que será publicada na Revista da próxima semana, o presidente da Câmara da Figueira da Foz volta a agitar as pantanosas águas do maior partido da oposição, não escondendo a impaciência com a situação que resultou do Congresso de Viseu e exigindo que se acabe «com a hipocrisia: todos falam baixo na mudança da liderança do PPD/PSD e, depois, ninguém, ou poucos, fala alto».
Garantindo que não está a defender a demissão de Durão Barroso, admite, no entanto, que não acredita no seu partido com o actual líder: «Conheço-o há muitos anos e não esperava que as coisas corressem tão mal como correram», confessa, remetendo Barroso para o pretérito e assestando as suas baterias em Marcelo Rebelo de Sousa - a quem atribui intenções de voltar a candidatar-se à liderança do PSD e, por isso, não lhe poupa críticas.
Contra a frente «anti-santanista»
Confessando-se estupefacto perante os rumores que referem a constituição de uma «frente-anti-santanista» destinada a evitar que ele chegue à presidência do partido - «Isto atinge as raias do ridículo!», comenta - Santana Lopes tranquiliza os seus adversários: «Quero dizer-lhes que não se preocupem, porque não vou fazer nada por isso». O seu plano, assegura, não tem nada de conspirativo: «A direcção do partido e o partido é que têm de promover, se quiserem, as medidas necessárias para mudar de vida. Se o fizerem, muito bem. Se entenderem que querem continuar com uma liderança do tipo da de Durão Barroso, eu discordo, mas respeito».
O primeiro passo, propõe, é um referendo interno sobre as eleições directas que o congresso de Viseu não aprovou: «Agora é o tempo certo para, com calma e serenidade, fazer o referendo sobre as directas», é o convite que endereça aos dirigentes do partido, garantindo-lhes: «Não faço campanha nem a favor nem contra, só quero saber se o partido quer ou não essas eleições directas, quer ou não mudar de vida, quer ou não deixar de funcionar em circuito fechado». O seu próprio destino, afiança, ficará de uma vez clarificado a partir daí: «Se o partido se começar a encaminhar no sentido das teses que defendo, terão de ser outros a escolher o novo caminho». Se assim não suceder, não hesitará: «Partirei à procura de uma alternativa por caminhos diferentes».
Um novo partido «é inevitável»
O autarca da Figueira considera inadiável a reorganização do centro-direita e está convencido de que esse processo conduzirá inevitavelmente a um novo partido. Se será ele ou não a liderar essa nova formação política, é uma questão cuja resposta deixa nas mãos dos seus companheiros sociais-democratas. O eterno candidato à liderança do PSD explica em detalhe as razões que o levam a rejeitar liminarmente tal estatuto e afirma-se «saturado»: «O PPD/PSD tem de mudar de vida», exige, num tom definitivo que manteve ao longo das mais de três horas de conversa e que só abrandou por uma ou duas vezes ao admitir que a sua indisponibilidade para voltar a candidatar-se à liderança cederia a um sério apelo dos militantes do seu partido em que, todavia, diz não acreditar.
Impaciente, o presidente da Câmara da Figueira da Foz esclarece que «chegou o momento de fazer a reorganização do centro-direita em Portugal». No seu entender, é necessário «construir uma alternativa», dado que «o centro-direita está bloqueado, objectiva e subjectivamente. Objectivamente, porque não há nenhum ponto de convergência entre os vários partidos desse espaço. Subjectivamente, porque, com as lideranças do PPD/PSD e do CDS-PP, essa convergência não é possível». Tal reorganização, admite, acabará por dar um só efeito: «Estou convencido de que é inevitável um novo partido. Resta saber quem o vai fazer».
Recusando que as suas palavras sejam interpretadas como «uma heterodoxia lesa-pátria ou lesa-partido», desdramatiza: «Tudo na vida se renova - as células do organismo humano estão em renovação permanente. E, no centro-direita, chegou a hora de mudar».
Pronto para uma alternativa
Reconhecendo que a política faz parte da sua vida, e que não saberia viver sem ela, recusa ficar de braços cruzados: «Sei que irei contribuir para a construção da alternativa ao PS. A questão está em saber se, de facto, será no meu partido ou não». Uma pergunta que quer ver respondida quanto antes: «Acho que é bom para o partido e para mim esclarecer isto». Por ele, não tem dúvidas: «Quero construir essa alternativa de centro-direita. Acredito que tenho condições para o fazer».
Uma alternativa que não significa necessariamente uma aliança com o CDS/PP para as legislativas - até porque, no seu entendimento, «se o PPD/PSD for pelo caminho que idealizo, pode ambicionar ganhar sozinho» -, mas que começa por vários acordos nas autárquicas que possibilitem uma mudança da realidade política. É aqui, sublinha, que «há uma necessidade de desbloquear caminhos que estão tapados», porque o que acontece hoje «é que o PPD/PSD e o CDS/PP são oposição um ao outro».
«Este relacionamento entre Durão e Portas é absolutamente inconcebível», condena, acrescentando que «um líder dum partido, por muitos problemas pessoais que tenha com outro, não pode dizer que nunca se sentará à mesa com ele, porque isso é bloquear soluções de futuro que podem ser necessárias». Uma relação diametralmente oposta à sua, que é fácil de perceber pelo que diz de Portas: «Não precisamos de conversar para nos entendermos ou desentendermos. Conhecemo-nos há muitos anos».
CRISTINA FIGUEIREDO e MÁRIO RAMIRES
Dicionário de Campanha a Duas Semanas do Fim Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Público
Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2005
CAVACO PRESIDENCIAL - É a palavra-chave para a noite de 20 de Fevereiro, porque será sob a sua sombra, real e virtual, necessária e ambígua, que o pós-legislativas no PSD se desenrolará. Na melhor das hipóteses, porque haverá uma escola de pensamento que se centrará nas autárquicas como argumento para manter o que resta e não mudar nada, e outra que se centrará nas presidenciais como momento de redenção partidária. Suspeito que esta escolha da sombra não será pacífica.
DEBATE SÓCRATES-SANTANA 1 - Toda a interpretação tem que ser minimalista, logo o resultado é pouco relevante.
DEBATE 2 - Foi pouco interessante, porque o método escolhido favorecia a ausência de espontaneidade, a única coisa que podia valorizar a interacção entre os dois candidatos. Foi pouco interessante, porque ambos têm pouca coisa a dizer para além de "slogans" mais ou menos plastificados e, acima de tudo, não falam normalmente, como as pessoas, nem falam dos problemas, a não ser para os adiar.
DEBATE 3 -Tudo o que Sócrates propõe custa mais dinheiro, tudo o que Santana propõe implica mais despesa. Nenhum diz uma única coisa concreta que pudesse significar uma efectiva redução ou redefinição do peso excessivo do Estado, e, quando o sugerem, aumentam-no noutro lado.
DEBATE 4 - O debate, para o que conta, favoreceu Sócrates junto do eleitorado, porque não o prejudicou, e beneficiou Santana, porque, quando a miséria é muita, qualquer migalha faz falta. No essencial não mudou nada.
FACT CHECKING.ORG - É um tipo de organização que faz falta em Portugal e que pudesse, em tempo útil, um dia ou dois, fornecer elementos sobre a fiabilidade e rigor dos números e afirmações que envolvem factos, do debate, e, por extensão, de toda a campanha.
FINANCIAMENTO DAS CAMPANHAS - Para haver maior transparência dos gastos de campanha era importante saber quais são as empresas a trabalhar para cada partido em áreas como a publicidade, "marketing" e relações públicas, consultadoria de campanha, montagem de palcos e contratação de artistas, colocação de cartazes, transportes e empréstimos de viaturas, etc.
GUTERRES - Apareceu em força na campanha do PS. É um erro clamoroso, dado que Guterres é um dos políticos portugueses cuja mera presença lembra sempre a fuga às responsabilidades e uma má governação, exactamente a sombra que o PS não deveria querer para a sua campanha.
HÁ COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM e uma delas é por que razão Santana Lopes abriu um conflito com Bagão Félix com o argumento de que não poderá voltar a fazer parte do seu governo ,porque já faz parte de "outro". E Portas, Nobre Guedes e Telmo Correia também estão excluídos?
JOTAS - As "jotas" são a tropa de choque das campanhas, já menos do que o que foram, mas o bastante. Hoje os idosos também são tropa de choque, porque servem para ir de comício em comício, como as excursões da terceira idade.
JOTAS 2 - A verdadeira "jota" é a JSD. Gostaria de saber se finalmente se acabou com o péssimo hábito de lhes pagar uma espécie de salário diário pelos serviços em campanha, verdadeira corrupção do militantismo político.
O MEU É MAIOR QUE O TEU - Como todas as competições para os pobres de espírito, enganadoras, simples, fáceis, o truque da comparação dos comícios de Castelo Branco resulta sempre. Os jornalistas vociferam nas suas páginas de opinião contra a falta de "novidade" deste tipo de campanha, mas fazem a cobertura noticiosa a partir desses mesmos factores que consideram obsoletos.
OBJECTIVOS PARA O PS - Maioria absoluta. Não estão a fazer campanha para isso, mas as coisas estão tão mal do lado do PSD, que lhes pode cair o resultado nos braços.
OBJECTIVOS PARA O PSD - Ganhar as eleições, colocando a hipótese de ter maioria absoluta, é o único objectivo aceitável para o PSD. Reconhecendo isso, Santana Lopes já o afirmou, mas o problema é que ele afirma várias coisas ao mesmo tempo e depois, quando é preciso, só lembra a que lhe interessa. Qualquer "downgrade" deste objectivo, como tenho visto na boca de alguns jornalistas incautos, considerando 30 por cento o limiar de um razoável resultado do PSD, ignora o histórico eleitoral nos últimos 20 anos. Antes é arqueologia, não serve de comparação. Desde Cavaco Silva, queira-se ou não, o objectivo natural do PSD é a maioria absoluta. Foi, aliás, o que Durão Barroso pediu nas últimas eleições legislativas, para ficar perto desse objectivo. Resultados abaixo de 40 por cento afastam decisivamente uma liderança que foi "vendida" ao partido como garantia de vitória eleitoral. Outros suportariam resultados medíocres, Santana Lopes, o do "karma" eleitoral, desde a Figueira só pode ganhar, até porque nunca nenhuma eleição foi tão personalizada. Ao escolher fazer propaganda de si próprio mais do que do PSD, Santana Lopes colocou-se num plebiscito que ele mesmo provocou.
OBJECTIVOS PARA O PCP - Pela natureza destes dias de fim do comunismo, tal como o conhecemos, o PCP está de há muito tempo em "dire straits". Mas Jerónimo de Sousa trouxe ao PCP uma personagem apaziguadora, mais moderado do que muitos pensaram, mais simpático para a opinião pública do que muitos anteviram (certamente muito mais do que o agressivo moralista Louçã). O PS terá aqui uma reserva para governar mais sólida do que o BE, caso não tenha maioria absoluta. O PCP é mais confiável e menos errático do que o BE, e hoje muito mais moderado. Convém não esquecer que sem o beneplácito do PCP não teria havido acordo social entre os sindicatos e o patronato.
OBJECTIVOS PARA O PP - Depois da parada pessoal de Santana Lopes, a parada do PP é a mais arriscada destas eleições. O PP não está a fazer campanha para ser partido de governo (sabe que não o será, dada a derrocada do PSD), mas sim para sobreviver. Não parece mas é. Há que reconhecer que o faz bem, tendo para já conquistado uma complacência elogiosa da comunicação social como de há muito não tinha. Os órgãos de comunicação social ignoram benevolamente que o PP é o partido que mais está a usar o Estado (no seu topo, o Governo), para ganhar votos, com a agenda ministerial de Paulo Portas, Nobre Guedes e Bagão Félix subordinada à campanha.
"O SENHOR SILVA DEVERIA SER EXPULSO DO PSD" - O "senhor Silva" é Cavaco Silva e o autor da frase é Alberto João Jardim. Está tudo dito quanto ao que vai acontecer depois de 20 de Fevereiro. Uma pequena guerra civil, obra de Santana Lopes.
Historiador
Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2005
CAVACO PRESIDENCIAL - É a palavra-chave para a noite de 20 de Fevereiro, porque será sob a sua sombra, real e virtual, necessária e ambígua, que o pós-legislativas no PSD se desenrolará. Na melhor das hipóteses, porque haverá uma escola de pensamento que se centrará nas autárquicas como argumento para manter o que resta e não mudar nada, e outra que se centrará nas presidenciais como momento de redenção partidária. Suspeito que esta escolha da sombra não será pacífica.
DEBATE SÓCRATES-SANTANA 1 - Toda a interpretação tem que ser minimalista, logo o resultado é pouco relevante.
DEBATE 2 - Foi pouco interessante, porque o método escolhido favorecia a ausência de espontaneidade, a única coisa que podia valorizar a interacção entre os dois candidatos. Foi pouco interessante, porque ambos têm pouca coisa a dizer para além de "slogans" mais ou menos plastificados e, acima de tudo, não falam normalmente, como as pessoas, nem falam dos problemas, a não ser para os adiar.
DEBATE 3 -Tudo o que Sócrates propõe custa mais dinheiro, tudo o que Santana propõe implica mais despesa. Nenhum diz uma única coisa concreta que pudesse significar uma efectiva redução ou redefinição do peso excessivo do Estado, e, quando o sugerem, aumentam-no noutro lado.
DEBATE 4 - O debate, para o que conta, favoreceu Sócrates junto do eleitorado, porque não o prejudicou, e beneficiou Santana, porque, quando a miséria é muita, qualquer migalha faz falta. No essencial não mudou nada.
FACT CHECKING.ORG - É um tipo de organização que faz falta em Portugal e que pudesse, em tempo útil, um dia ou dois, fornecer elementos sobre a fiabilidade e rigor dos números e afirmações que envolvem factos, do debate, e, por extensão, de toda a campanha.
FINANCIAMENTO DAS CAMPANHAS - Para haver maior transparência dos gastos de campanha era importante saber quais são as empresas a trabalhar para cada partido em áreas como a publicidade, "marketing" e relações públicas, consultadoria de campanha, montagem de palcos e contratação de artistas, colocação de cartazes, transportes e empréstimos de viaturas, etc.
GUTERRES - Apareceu em força na campanha do PS. É um erro clamoroso, dado que Guterres é um dos políticos portugueses cuja mera presença lembra sempre a fuga às responsabilidades e uma má governação, exactamente a sombra que o PS não deveria querer para a sua campanha.
HÁ COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM e uma delas é por que razão Santana Lopes abriu um conflito com Bagão Félix com o argumento de que não poderá voltar a fazer parte do seu governo ,porque já faz parte de "outro". E Portas, Nobre Guedes e Telmo Correia também estão excluídos?
JOTAS - As "jotas" são a tropa de choque das campanhas, já menos do que o que foram, mas o bastante. Hoje os idosos também são tropa de choque, porque servem para ir de comício em comício, como as excursões da terceira idade.
JOTAS 2 - A verdadeira "jota" é a JSD. Gostaria de saber se finalmente se acabou com o péssimo hábito de lhes pagar uma espécie de salário diário pelos serviços em campanha, verdadeira corrupção do militantismo político.
O MEU É MAIOR QUE O TEU - Como todas as competições para os pobres de espírito, enganadoras, simples, fáceis, o truque da comparação dos comícios de Castelo Branco resulta sempre. Os jornalistas vociferam nas suas páginas de opinião contra a falta de "novidade" deste tipo de campanha, mas fazem a cobertura noticiosa a partir desses mesmos factores que consideram obsoletos.
OBJECTIVOS PARA O PS - Maioria absoluta. Não estão a fazer campanha para isso, mas as coisas estão tão mal do lado do PSD, que lhes pode cair o resultado nos braços.
OBJECTIVOS PARA O PSD - Ganhar as eleições, colocando a hipótese de ter maioria absoluta, é o único objectivo aceitável para o PSD. Reconhecendo isso, Santana Lopes já o afirmou, mas o problema é que ele afirma várias coisas ao mesmo tempo e depois, quando é preciso, só lembra a que lhe interessa. Qualquer "downgrade" deste objectivo, como tenho visto na boca de alguns jornalistas incautos, considerando 30 por cento o limiar de um razoável resultado do PSD, ignora o histórico eleitoral nos últimos 20 anos. Antes é arqueologia, não serve de comparação. Desde Cavaco Silva, queira-se ou não, o objectivo natural do PSD é a maioria absoluta. Foi, aliás, o que Durão Barroso pediu nas últimas eleições legislativas, para ficar perto desse objectivo. Resultados abaixo de 40 por cento afastam decisivamente uma liderança que foi "vendida" ao partido como garantia de vitória eleitoral. Outros suportariam resultados medíocres, Santana Lopes, o do "karma" eleitoral, desde a Figueira só pode ganhar, até porque nunca nenhuma eleição foi tão personalizada. Ao escolher fazer propaganda de si próprio mais do que do PSD, Santana Lopes colocou-se num plebiscito que ele mesmo provocou.
OBJECTIVOS PARA O PCP - Pela natureza destes dias de fim do comunismo, tal como o conhecemos, o PCP está de há muito tempo em "dire straits". Mas Jerónimo de Sousa trouxe ao PCP uma personagem apaziguadora, mais moderado do que muitos pensaram, mais simpático para a opinião pública do que muitos anteviram (certamente muito mais do que o agressivo moralista Louçã). O PS terá aqui uma reserva para governar mais sólida do que o BE, caso não tenha maioria absoluta. O PCP é mais confiável e menos errático do que o BE, e hoje muito mais moderado. Convém não esquecer que sem o beneplácito do PCP não teria havido acordo social entre os sindicatos e o patronato.
OBJECTIVOS PARA O PP - Depois da parada pessoal de Santana Lopes, a parada do PP é a mais arriscada destas eleições. O PP não está a fazer campanha para ser partido de governo (sabe que não o será, dada a derrocada do PSD), mas sim para sobreviver. Não parece mas é. Há que reconhecer que o faz bem, tendo para já conquistado uma complacência elogiosa da comunicação social como de há muito não tinha. Os órgãos de comunicação social ignoram benevolamente que o PP é o partido que mais está a usar o Estado (no seu topo, o Governo), para ganhar votos, com a agenda ministerial de Paulo Portas, Nobre Guedes e Bagão Félix subordinada à campanha.
"O SENHOR SILVA DEVERIA SER EXPULSO DO PSD" - O "senhor Silva" é Cavaco Silva e o autor da frase é Alberto João Jardim. Está tudo dito quanto ao que vai acontecer depois de 20 de Fevereiro. Uma pequena guerra civil, obra de Santana Lopes.
Historiador
Wednesday, February 09, 2005
Grande Tanga! Por JOAQUIM FIDALGO
Público
Quarta-feira, 09 de Fevereiro de 2005
Crise? Qual crise?
"As vendas de automóveis de luxo em Portugal cresceram 3,01 por cento em 2004, para 617 unidades (...). O modelo de luxo Porsche 911 explica grande parte deste aumento, com 68 unidades vendidas, mais 23 do que em 2003, correspondente a um acréscimo de 51,1 por cento. A Maserati vendeu 12 automóveis desportivos de luxo em 2004 (nove em 2003), a Ferrari 11 (10 em 2003), a Aston Martin seis (três em 2003) e a Lamborghini três (nenhum em 2003)." (PÚBLICO, 28-1-05)
Crise?
"Os lucros do BPI aumentaram 17,6 por cento em 2004, ascendendo a 192,7 milhões de euros, muito acima do estimado pelos analistas financeiros." ("Expresso", 29-1-05)
Crise?
"Os lucros conjuntos das três companhias de seguros do grupo Espírito Santo Finantial Group atingiram no ano passado os 49,5 milhões de euros." (PÚBLICO, 1-2-05)
Crise?
"O resultado líquido do BCP subiu 17,2 por cento para 513 milhões de euros em 2004 face a 2003, acima do previsto pelos analistas, que apontavam para um valor entre os 476 e os 507 milhões de euros." (PÚBLICO, 26-1-05)
Crise?
"O Banco Nacional Ultramarino encerrou 2004 com lucros de 8 milhões de euros, o que representa um aumento de 40,1 por cento." ("Expresso", 29-1-05)
Crise?
"O lucro do BES aumentou 11,5 por cento para 275,1 milhões de euros em 2004, um crescimento acima das estimativas dos analistas (...). Os analistas previam um lucro líquido entre os 221 e os 270 milhões de euros." (PÚBLICO, 4-2-05)
Crise?
"O Banco Nacional de Crédito (BNC) teve, no ano passado, um lucro líquido de 33,7 milhões de euros." (PÚBLICO, 28-1-05)
Crise?
"A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa obteve receitas de 1014 milhões de euros em 2004, mais 24,7 por cento do que os 813 milhões arrecadados no ano anterior. Este resultado, apresentado como sendo um 'montante recorde' na história da instituição, teve como principal contribuinte o Euromilhões (...) Entre os vários países que aderiram a este jogo, Portugal está nos três primeiros, em termos de valor absoluto de apostas, e é o primeiro em valor 'per capita'." ("Diário Económico", 27-1-05)
Crise?
"Portugal mantém a mais baixa taxa de produtividade do trabalho de toda a União Europeia (UE) e a mais alta taxa de abandono escolar, um dos piores níveis de qualificação profissional e um dos mais elevados riscos de pobreza e de exclusão social. Este quadro negro é traçado numa bateria de relatórios sobre a situação económica, do emprego e da protecção social dos Vinte e Cinco ontem publicados pela Comissão Europeia (...). O abandono escolar continua a atingir 40,4 por cento dos estudantes do ensino secundário, contra 15,9 por cento no conjunto da UE, e quase 40 por cento dos universitários. Só Malta apresenta piores resultados. (...) Bruxelas assinala igualmente uma 'tendência preocupante' para o aumento do desemprego dos mais velhos, o que agrava os riscos de pobreza." (PÚBLICO, 28-1-05)
Ah!, crise...
Quarta-feira, 09 de Fevereiro de 2005
Crise? Qual crise?
"As vendas de automóveis de luxo em Portugal cresceram 3,01 por cento em 2004, para 617 unidades (...). O modelo de luxo Porsche 911 explica grande parte deste aumento, com 68 unidades vendidas, mais 23 do que em 2003, correspondente a um acréscimo de 51,1 por cento. A Maserati vendeu 12 automóveis desportivos de luxo em 2004 (nove em 2003), a Ferrari 11 (10 em 2003), a Aston Martin seis (três em 2003) e a Lamborghini três (nenhum em 2003)." (PÚBLICO, 28-1-05)
Crise?
"Os lucros do BPI aumentaram 17,6 por cento em 2004, ascendendo a 192,7 milhões de euros, muito acima do estimado pelos analistas financeiros." ("Expresso", 29-1-05)
Crise?
"Os lucros conjuntos das três companhias de seguros do grupo Espírito Santo Finantial Group atingiram no ano passado os 49,5 milhões de euros." (PÚBLICO, 1-2-05)
Crise?
"O resultado líquido do BCP subiu 17,2 por cento para 513 milhões de euros em 2004 face a 2003, acima do previsto pelos analistas, que apontavam para um valor entre os 476 e os 507 milhões de euros." (PÚBLICO, 26-1-05)
Crise?
"O Banco Nacional Ultramarino encerrou 2004 com lucros de 8 milhões de euros, o que representa um aumento de 40,1 por cento." ("Expresso", 29-1-05)
Crise?
"O lucro do BES aumentou 11,5 por cento para 275,1 milhões de euros em 2004, um crescimento acima das estimativas dos analistas (...). Os analistas previam um lucro líquido entre os 221 e os 270 milhões de euros." (PÚBLICO, 4-2-05)
Crise?
"O Banco Nacional de Crédito (BNC) teve, no ano passado, um lucro líquido de 33,7 milhões de euros." (PÚBLICO, 28-1-05)
Crise?
"A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa obteve receitas de 1014 milhões de euros em 2004, mais 24,7 por cento do que os 813 milhões arrecadados no ano anterior. Este resultado, apresentado como sendo um 'montante recorde' na história da instituição, teve como principal contribuinte o Euromilhões (...) Entre os vários países que aderiram a este jogo, Portugal está nos três primeiros, em termos de valor absoluto de apostas, e é o primeiro em valor 'per capita'." ("Diário Económico", 27-1-05)
Crise?
"Portugal mantém a mais baixa taxa de produtividade do trabalho de toda a União Europeia (UE) e a mais alta taxa de abandono escolar, um dos piores níveis de qualificação profissional e um dos mais elevados riscos de pobreza e de exclusão social. Este quadro negro é traçado numa bateria de relatórios sobre a situação económica, do emprego e da protecção social dos Vinte e Cinco ontem publicados pela Comissão Europeia (...). O abandono escolar continua a atingir 40,4 por cento dos estudantes do ensino secundário, contra 15,9 por cento no conjunto da UE, e quase 40 por cento dos universitários. Só Malta apresenta piores resultados. (...) Bruxelas assinala igualmente uma 'tendência preocupante' para o aumento do desemprego dos mais velhos, o que agrava os riscos de pobreza." (PÚBLICO, 28-1-05)
Ah!, crise...
Sem Contraditório! Por M. FÁTIMA BONIFÁCIO
Quarta-feira, 09 de Fevereiro de 2005
Em 1976, por ocasião das primeiras eleições legislativas, tinha um carpinteiro que andava lá por casa a fazer umas estantes. Como estamos todos lembrados, ganhou o PS. No dia seguinte, perguntei-lhe se estava satisfeito com os resultados eleitorais. Respondeu-me: "Olhe, sra. doutora, deitei PS, e acertei!". Compreendi então como funcionava o mecanismo que tanto faz Santana Lopes temer pelos resultados do próximo dia 20 de Fevereiro. Nessa época, não havia sondagens e as pessoas tinham de se deitar a adivinhar quem ganharia, para acertar no vencedor. Esta completa inversão da lógica eleitoral ainda hoje vigora. Porquê? Porque, alegadamente, as pessoas gostam de ganhar e tenderiam, por isso, a por o seu voto no candidato que supõem antecipadamente vencedor. Foi esta convicção que deixou Santana Lopes furioso com as recentes sondagens e lhe deu mais uma oportunidade para exibir o seu incurável destempero.
No dia seguinte à publicação de duas sondagens que lhe davam uns humilhantes 27 ou 28 por cento dos votos, Santana denunciou logo, com o ar de vítima a que nos habituou, que estava em curso uma "mega-fraude" para sabotar a sua campanha eleitoral e o privar da sua merecida vitória. E ameaçou que, depois do dia 20 de Fevereiro, se ganhasse as eleições, as empresas de sondagens teriam de se haver com ele. Nada ficaria como dantes. Não especificou exacta e concretamente o que faria, mas qualquer ouvinte ou telespectador imaginou logo que haveria auditorias ou até processos judiciais. Em qualquer caso, e infelizmente, o "contraditório" teria que ficar para mais tarde. Uma vez mais, a verdadeira opinião pública - que as viciadas sondagens não reflectiam - estava a ser manipulada por agentes que beneficiavam da impunidade resultante de não haver "contraditório". Prometeu, para altura oportuna, dar-lhes a lição que os ensinasse, no futuro, a não prejudicar a sua gloriosa carreira política lançando a dúvida sobre o grau de estima em que era tido pelos seus queridos "portugueses e portuguesas".
Os donos ou directores das empresas de sondagens reagiram às disparatadas acusações do ainda primeiro-ministro com equanimidade ou ironia. Um deles, em maré de benevolência, admitiu até que se tratara de um excesso justificado pelo calor do comício e pelo nervosismo que os resultados das sondagens compreensivelmente provocavam em quem joga o seu futuro político no próximo acto eleitoral. A reacção de Santana seria, assim, digamos que excepcional e em divergência com as fundas e naturais inclinações do seu ser. Nada de menos verdade. Desde logo, já tivéramos um prenúncio do ataque contra as sondagens em recentes declarações de Miguel Relvas que, fazendo - numa versão mais branda, convenho - o mesmo papel que Gomes da Silva fizera no caso Marcelo, veio a terreiro dizer que havia uma deplorável promiscuidade entre a política e as empresas de sondagens. Quanto à destemperada reacção de Santana, não revela nada de novo e pelo contrário confirma a sua tendência para tentar silenciar aqueles que, com as suas críticas, possam ou podem de facto contribuir para ensombrar a gloriosa imagem que tem de si mesmo, por em causa a sua competência para governar e apoucar o seu presumido sucesso. Santana Lopes pensa que governar é deslocar-se sempre com um exército de assessores e seguranças atrás de si e estar em contínua exposição mediática. Quem tem esta concepção da política e da governação é inevitavelmente impelido para tentar controlar e manipular a comunicação social, do que ele deu vários exemplos.
Lopes não percebe por que tem má imprensa. Como sempre e em tudo, julga-se uma vítima. Ao longo da campanha eleitoral, não tem feito mais do que queixar-se das "traições", das "facadas" e dos "tiros" que, diz ele, os correligionários disparam na sua própria trincheira. Porque não corre toda a gente a exaltá-lo? Como é possível que dentro do seu próprio partido haja tanta gente respeitável que não o aprecia nem confia nele? Ele, o apóstolo de Sá Carneiro (há quem diga que é a "pesada herança" que o fundador deixou!); ele, que leu gravado nas estrelas o seu destino de primeiro-ministro; ele, habituado a ter razão contra tudo e contra todos e a vencer contra ventos e marés; ele, que oferece generosamente à pátria a sua visão de futuro, o seu rasgo político, a sua capacidade para dirigir os homens... Ele, que em quatro meses de governo acertou em tantas decisões difíceis, tomou tantas opções corajosas, derrubou tantos obstáculos intransponíveis, ao ponto de que em tão escasso tempo passou a ombrear com os (poucos) portugueses que em trinta anos mais tinham feito pelo país! A absoluta falta de pudor com que Lopes se insinuou no primeiro plano do célebre cartaz em que Cavaco Silva (e bem) recusou figurar, dá a medida não apenas da sua tão desmedida quanto injustificada vaidade, como, sobretudo, da absoluta falta de noção do que vale e da irremediável inconsciência da sua flagrante mediocridade.
Mais do que ninguém, ele teria precisado de se afirmar e legitimar pelo mérito. Dentro do PSD, Lopes não passava do chefe de uma pequena facção - isso mesmo, uma facção - que Durão Barroso, para se livrar de problemas e incómodos, promoveu a número dois do partido. A receita não era nova. Já Cavaco Silva, em tempos, o mantivera entretido na secretaria de Estado da Cultura. Nada, mas nada no seu currículo o recomendava para uma tal responsabilidade, a não ser que seja norma do PSD premiar quem lhe anima os congressos com a exibição de sentimentalismos que atraem as televisões. Por isso, quando apareceu indigitado para primeiro-ministro, logo houve quem dissesse que o caso, a confirmar-se, equivalia a um golpe de estado partidário: por um acaso da fortuna (ou talvez fossem as tais estrelas!), a facção conquistava o partido e, por inerência, o governo de Portugal. Ele há facções felizes!
Só que estas coisas não se perdoam facilmente. Como todos os chefes de facção, Lopes tinha um terrível problema de legitimidade que o Congresso do Partido evidentemente não resolveu. Pelas piores razões, distritais, autarquias e gente avulsa correram a colar-se ao novo chefe que, sobre ter fabricado para si próprio uma inexplicável aura de invencível, tinha fama de compensar com mãos largas os que se lhe rendiam. Com ele viriam aí, finalmente, após dois anos de fome, as vacas gordas. Não se enganaram. A presença de Bagão Félix não foi suficiente para impedir Lopes de proclamar no Congresso que não queria - como se fosse questão de apetecer - impor mais sacrifícios "às portuguesas e aos portugueses". Enganaram-se, isso sim, os que pensaram que o homem podia ser controlado. Assim que se apanhou com o poder todo, a sua natureza caprichosa e desordenada manifestou-se em todo o seu esplendor. Os desconchavos que rodearam a formação e a posse do executivo foram o prenúncio certo de um estilo governativo marcado por "trapalhadas" semanais e pelo desnorte constante. Cedo se estabeleceu um padrão que, como disse o Presidente da República, não era susceptível de regeneração. Lopes desperdiçou em pouco tempo a única possibilidade que teria tido de se legitimar: a competência governativa. Em vez disso, tornou limpidamente claro que não estava à altura do cargo nem possuía as qualificações mínimas para o exercer. Nem todos os "contraditórios" do mundo nem a mais prodigiosa central de informação seriam capazes de esconder este facto que as sondagens, sem "contraditório", para já confirmam.
Não espero que Sócrates retire o país da mediocridade em que se atolou. Mas espero que afaste Santana e ao menos restitua à vida política um módico de normalidade.
Historiadora
Em 1976, por ocasião das primeiras eleições legislativas, tinha um carpinteiro que andava lá por casa a fazer umas estantes. Como estamos todos lembrados, ganhou o PS. No dia seguinte, perguntei-lhe se estava satisfeito com os resultados eleitorais. Respondeu-me: "Olhe, sra. doutora, deitei PS, e acertei!". Compreendi então como funcionava o mecanismo que tanto faz Santana Lopes temer pelos resultados do próximo dia 20 de Fevereiro. Nessa época, não havia sondagens e as pessoas tinham de se deitar a adivinhar quem ganharia, para acertar no vencedor. Esta completa inversão da lógica eleitoral ainda hoje vigora. Porquê? Porque, alegadamente, as pessoas gostam de ganhar e tenderiam, por isso, a por o seu voto no candidato que supõem antecipadamente vencedor. Foi esta convicção que deixou Santana Lopes furioso com as recentes sondagens e lhe deu mais uma oportunidade para exibir o seu incurável destempero.
No dia seguinte à publicação de duas sondagens que lhe davam uns humilhantes 27 ou 28 por cento dos votos, Santana denunciou logo, com o ar de vítima a que nos habituou, que estava em curso uma "mega-fraude" para sabotar a sua campanha eleitoral e o privar da sua merecida vitória. E ameaçou que, depois do dia 20 de Fevereiro, se ganhasse as eleições, as empresas de sondagens teriam de se haver com ele. Nada ficaria como dantes. Não especificou exacta e concretamente o que faria, mas qualquer ouvinte ou telespectador imaginou logo que haveria auditorias ou até processos judiciais. Em qualquer caso, e infelizmente, o "contraditório" teria que ficar para mais tarde. Uma vez mais, a verdadeira opinião pública - que as viciadas sondagens não reflectiam - estava a ser manipulada por agentes que beneficiavam da impunidade resultante de não haver "contraditório". Prometeu, para altura oportuna, dar-lhes a lição que os ensinasse, no futuro, a não prejudicar a sua gloriosa carreira política lançando a dúvida sobre o grau de estima em que era tido pelos seus queridos "portugueses e portuguesas".
Os donos ou directores das empresas de sondagens reagiram às disparatadas acusações do ainda primeiro-ministro com equanimidade ou ironia. Um deles, em maré de benevolência, admitiu até que se tratara de um excesso justificado pelo calor do comício e pelo nervosismo que os resultados das sondagens compreensivelmente provocavam em quem joga o seu futuro político no próximo acto eleitoral. A reacção de Santana seria, assim, digamos que excepcional e em divergência com as fundas e naturais inclinações do seu ser. Nada de menos verdade. Desde logo, já tivéramos um prenúncio do ataque contra as sondagens em recentes declarações de Miguel Relvas que, fazendo - numa versão mais branda, convenho - o mesmo papel que Gomes da Silva fizera no caso Marcelo, veio a terreiro dizer que havia uma deplorável promiscuidade entre a política e as empresas de sondagens. Quanto à destemperada reacção de Santana, não revela nada de novo e pelo contrário confirma a sua tendência para tentar silenciar aqueles que, com as suas críticas, possam ou podem de facto contribuir para ensombrar a gloriosa imagem que tem de si mesmo, por em causa a sua competência para governar e apoucar o seu presumido sucesso. Santana Lopes pensa que governar é deslocar-se sempre com um exército de assessores e seguranças atrás de si e estar em contínua exposição mediática. Quem tem esta concepção da política e da governação é inevitavelmente impelido para tentar controlar e manipular a comunicação social, do que ele deu vários exemplos.
Lopes não percebe por que tem má imprensa. Como sempre e em tudo, julga-se uma vítima. Ao longo da campanha eleitoral, não tem feito mais do que queixar-se das "traições", das "facadas" e dos "tiros" que, diz ele, os correligionários disparam na sua própria trincheira. Porque não corre toda a gente a exaltá-lo? Como é possível que dentro do seu próprio partido haja tanta gente respeitável que não o aprecia nem confia nele? Ele, o apóstolo de Sá Carneiro (há quem diga que é a "pesada herança" que o fundador deixou!); ele, que leu gravado nas estrelas o seu destino de primeiro-ministro; ele, habituado a ter razão contra tudo e contra todos e a vencer contra ventos e marés; ele, que oferece generosamente à pátria a sua visão de futuro, o seu rasgo político, a sua capacidade para dirigir os homens... Ele, que em quatro meses de governo acertou em tantas decisões difíceis, tomou tantas opções corajosas, derrubou tantos obstáculos intransponíveis, ao ponto de que em tão escasso tempo passou a ombrear com os (poucos) portugueses que em trinta anos mais tinham feito pelo país! A absoluta falta de pudor com que Lopes se insinuou no primeiro plano do célebre cartaz em que Cavaco Silva (e bem) recusou figurar, dá a medida não apenas da sua tão desmedida quanto injustificada vaidade, como, sobretudo, da absoluta falta de noção do que vale e da irremediável inconsciência da sua flagrante mediocridade.
Mais do que ninguém, ele teria precisado de se afirmar e legitimar pelo mérito. Dentro do PSD, Lopes não passava do chefe de uma pequena facção - isso mesmo, uma facção - que Durão Barroso, para se livrar de problemas e incómodos, promoveu a número dois do partido. A receita não era nova. Já Cavaco Silva, em tempos, o mantivera entretido na secretaria de Estado da Cultura. Nada, mas nada no seu currículo o recomendava para uma tal responsabilidade, a não ser que seja norma do PSD premiar quem lhe anima os congressos com a exibição de sentimentalismos que atraem as televisões. Por isso, quando apareceu indigitado para primeiro-ministro, logo houve quem dissesse que o caso, a confirmar-se, equivalia a um golpe de estado partidário: por um acaso da fortuna (ou talvez fossem as tais estrelas!), a facção conquistava o partido e, por inerência, o governo de Portugal. Ele há facções felizes!
Só que estas coisas não se perdoam facilmente. Como todos os chefes de facção, Lopes tinha um terrível problema de legitimidade que o Congresso do Partido evidentemente não resolveu. Pelas piores razões, distritais, autarquias e gente avulsa correram a colar-se ao novo chefe que, sobre ter fabricado para si próprio uma inexplicável aura de invencível, tinha fama de compensar com mãos largas os que se lhe rendiam. Com ele viriam aí, finalmente, após dois anos de fome, as vacas gordas. Não se enganaram. A presença de Bagão Félix não foi suficiente para impedir Lopes de proclamar no Congresso que não queria - como se fosse questão de apetecer - impor mais sacrifícios "às portuguesas e aos portugueses". Enganaram-se, isso sim, os que pensaram que o homem podia ser controlado. Assim que se apanhou com o poder todo, a sua natureza caprichosa e desordenada manifestou-se em todo o seu esplendor. Os desconchavos que rodearam a formação e a posse do executivo foram o prenúncio certo de um estilo governativo marcado por "trapalhadas" semanais e pelo desnorte constante. Cedo se estabeleceu um padrão que, como disse o Presidente da República, não era susceptível de regeneração. Lopes desperdiçou em pouco tempo a única possibilidade que teria tido de se legitimar: a competência governativa. Em vez disso, tornou limpidamente claro que não estava à altura do cargo nem possuía as qualificações mínimas para o exercer. Nem todos os "contraditórios" do mundo nem a mais prodigiosa central de informação seriam capazes de esconder este facto que as sondagens, sem "contraditório", para já confirmam.
Não espero que Sócrates retire o país da mediocridade em que se atolou. Mas espero que afaste Santana e ao menos restitua à vida política um módico de normalidade.
Historiadora
Tuesday, February 08, 2005
Crise? Qual Crise? Por TERESA DE SOUSA
Público
Terça-feira, 08 de Fevereiro de 2005
1. Há qualquer coisa de profundamente estranho nesta campanha eleitoral. Não falo das insinuações torpes nem da boataria nojenta utilizada por aqueles que já não têm nada a perder, nem sequer o bom nome de um partido fulcral para a democracia portuguesa, no caso o PSD. Falo do tom geral da campanha, que alimenta e que é, por sua vez, alimentado pelo mundo virtual das televisões, num infernal círculo vicioso que ninguém parece conseguir romper.
A estranheza está em que, debates e comícios confundidos, o país já saiu, definitivamente, da realidade. As "Novas Fronteiras" - insisto, um exercício interessante - esfumaram-se numa só mensagem dominante: afastado o PSD do governo, tudo se resolverá. O discurso das "missões" Portugal e outras iniciativas que vinham de Barroso e que acentuavam o pendor claramente liberal da governação PSD esfumou-se, há mais tempo é verdade, no populismo frenético de Santana onde tudo é em cada instante possível - uma coisa e o seu contrário.
É caso para nos perguntarmos para onde foi a crise.
2. Mas será que há mesmo crise? O IKEA - esse monumento ao consumo barato mas elegante das classes médias europeias - acaba de registar em Portugal o seu maior sucesso de sempre. A tal ponto que a multinacional sueca antecipou de um ano a recuperação do seu investimento. A venda de automóveis, sobretudo os de gama alta, subiu significativamente. Já éramos, na Europa, os campeões dos telemóveis (ontem, novos dados divulgados pela Comissão confirmaram a tendência) e do número de televisões por habitação, somos quase campeões da segunda habitação. Não interessa se não lemos jornais, se compramos poucos livros, se investimos pouco na educação, na nossa e na dos nossos filhos, ou se nem sequer achamos necessário fazê-lo, como mostra o último Eurobarómetro. Tudo parece indicar que, pelo menos ao nível das percepções da realidade, ainda continuamos a viver o milagre do "boom" consumista do final dos anos 90, graças à queda abrupta das taxas de juro devida ao euro e ao bom desempenho da economia europeia. Consolidámos um nível de expectativas que, no que respeita aos bens materiais, pouco nos afasta dos países europeus, independentemente de podermos ou não mantê-las.
O último Eurobarómetro, divulgado na semana passada, dá que pensar. Portugal é um dos países da UE a 25 com uma perspectiva mais negra da economia e do emprego para os próximos anos. No primeiro caso, 95 por cento dos portugueses têm uma visão pessimista - o pior número dos 25. Dir-se-ia que as condições parecem maduras para um discurso de verdade que levasse os eleitores a fazer as suas escolhas com base numa percepção mais verdadeira da realidade. Mas, ao mesmo tempo, o efeito IKEA também lá está expresso: quando se trata da sua própria situação individual, os portugueses que têm emprego estão razoavelmente confiantes na sua manutenção e na estabilidade da sua própria situação económica. E nem sequer consideram que investir na sua educação e formação ou que canalizar colectivamente mais recursos para a I&D e para a inovação seja muito relevante - para si próprios e para o país.
Ou seja, ficamos com a sensação de que os portugueses acreditam que podem continuar a mobilar a segunda habitação no IKEA mantendo uma produtividade que é metade da média europeia, a maior taxa de insucesso escolar dos 25, a manutenção artificial das indústrias que estão condenadas, um sistema de segurança social tão intocável como um direito divino.
3. As elites, incluindo as políticas, têm perfeita consciência de que esta situação é insustentável e que é também grande o risco que colectivamente corremos no curto prazo de nos auto-condenarmos à estagnação prolongada que nos afastará inexoravelmente dos padrões europeus. O que deveriam estar, pois, a discutir seria as formas de evitar esse risco, traduzidas em diferentes propostas partidárias para inverter a situação.
Na filosofia geral do programa do PS há um caminho que pode resumir-se assim - apostar tudo na criação de condições para que as ilhas de excelência da economia do país (que já existem mas que ainda não constituem a massa crítica necessária para alterar qualitativamente o nosso padrão de desenvolvimento) se possam expandir progressivamente; transferir e optimizar recursos para os sectores que potenciam essa mudança e que são a investigação científica e tecnológica, a educação, formação, a inovação; ganhar eficiência nos serviços públicos, preservando no geral o modelo universal.
Ouvindo Sócrates, só com uma enorme imaginação conseguimos lá chegar. Dizer que é preciso canalizar recursos do Estado para os idosos com rendimentos inferiores a 300 euros não é errado. Nenhuma sociedade decente pode ficar inactiva perante esta realidade, que todos sabemos que existe sem precisar de estatísticas, esperando que as velhas redes tradicionais da vizinhança, da família ou da paróquia resolvam o problema. Mas era preciso que Sócrates estabelecesse uma escala de prioridades, explicando quem iria perder alguma coisa.
A filosofia do programa do PSD deveria ser diferente, se continuasse a seguir o modelo barrosista - um Estado menos interventor em matéria de mudança de padrão de desenvolvimento, centrando os incentivos na redução dos impostos e deixando que as empresas façam o resto; e, consequentemente, disposto a reduzir significativamente as despesas públicas, incluindo a privatização de sectores importantes da segurança social. O modelo de Santana é mais parecido com o do PCP: se for preciso, acciona-se a cláusula de salvaguarda do acordo de liberalização do comércio dos têxteis; ninguém tocará nos direitos adquiridos de ninguém; ou, então, num toque de modernidade mais ao estilo "bloquista", anunciando que está tudo em aberto, da clonagem à eutanásia, "you name it"...
Em suma, em vez de estarmos a debater políticas estamos a falar de milagres. Do milagre da transformação da Função Pública sem despedir ninguém, sem congelar salários ou promoções, sem quebrar imobilismos e direitos adquiridos. Do milagre da alteração do nosso padrão de desenvolvimento sem deixar fechar indústrias têxteis nem aumentar o desemprego na construção civil. Do milagre do combate ao tremendo insucesso escolar, que nos está a condenar a prazo, sem alterar profundamente o modelo centralizador e irresponsabilizador que continua a vigorar em Portugal, apesar das sucessivas reformas.
Não admira, pois, que tudo se meça na televisão em termos de decibéis dos comícios ou de litros de suor vertidos, de empatia televisiva ou da cor da gravata dos líderes - entre o "tijolo" ousado e o "azul-bébé" mais para o clássico.
4. Tinha de ser assim? Quando, em 1983, fiz a cobertura da campanha de Mário Soares, lembro-me como se fosse hoje que o então líder do PS começava todos os comícios com uma mesma e única frase: "Só voz posso prometer a austeridade". É verdade que, nessa altura, Soares tinha uma meta a propor aos portugueses que era a Europa. É verdade que Portugal não era ainda membro da UE nem do euro e que, por isso, o desequilíbrio assustador das contas externas tinha consequências muito mais graves. Mas o essencial é que havia um líder determinado em fazer o que era preciso para colocar o país no caminho do futuro. Quando, em 1987, acompanhei a campanha que conduziu Cavaco Silva à primeira maioria absoluta, as escolhas eram outras, muito menos dramáticas mas, mesmo assim, decisivas. Com o país integrado na Europa, havia outro conforto mas também outro tipo de rupturas a fazer. Mais de natureza ideológica e de urgência de alteração do modelo económico "nacionalizado" que a revolução deixara. Não me lembro de Cavaco ter feito uma campanha de meias palavras para agradar a gregos e troianos. Lembro-me da polarização de opções e de uma tremenda mobilização do eleitorado. Não foram precisas sondagens para antecipar maioria absoluta.
Terça-feira, 08 de Fevereiro de 2005
1. Há qualquer coisa de profundamente estranho nesta campanha eleitoral. Não falo das insinuações torpes nem da boataria nojenta utilizada por aqueles que já não têm nada a perder, nem sequer o bom nome de um partido fulcral para a democracia portuguesa, no caso o PSD. Falo do tom geral da campanha, que alimenta e que é, por sua vez, alimentado pelo mundo virtual das televisões, num infernal círculo vicioso que ninguém parece conseguir romper.
A estranheza está em que, debates e comícios confundidos, o país já saiu, definitivamente, da realidade. As "Novas Fronteiras" - insisto, um exercício interessante - esfumaram-se numa só mensagem dominante: afastado o PSD do governo, tudo se resolverá. O discurso das "missões" Portugal e outras iniciativas que vinham de Barroso e que acentuavam o pendor claramente liberal da governação PSD esfumou-se, há mais tempo é verdade, no populismo frenético de Santana onde tudo é em cada instante possível - uma coisa e o seu contrário.
É caso para nos perguntarmos para onde foi a crise.
2. Mas será que há mesmo crise? O IKEA - esse monumento ao consumo barato mas elegante das classes médias europeias - acaba de registar em Portugal o seu maior sucesso de sempre. A tal ponto que a multinacional sueca antecipou de um ano a recuperação do seu investimento. A venda de automóveis, sobretudo os de gama alta, subiu significativamente. Já éramos, na Europa, os campeões dos telemóveis (ontem, novos dados divulgados pela Comissão confirmaram a tendência) e do número de televisões por habitação, somos quase campeões da segunda habitação. Não interessa se não lemos jornais, se compramos poucos livros, se investimos pouco na educação, na nossa e na dos nossos filhos, ou se nem sequer achamos necessário fazê-lo, como mostra o último Eurobarómetro. Tudo parece indicar que, pelo menos ao nível das percepções da realidade, ainda continuamos a viver o milagre do "boom" consumista do final dos anos 90, graças à queda abrupta das taxas de juro devida ao euro e ao bom desempenho da economia europeia. Consolidámos um nível de expectativas que, no que respeita aos bens materiais, pouco nos afasta dos países europeus, independentemente de podermos ou não mantê-las.
O último Eurobarómetro, divulgado na semana passada, dá que pensar. Portugal é um dos países da UE a 25 com uma perspectiva mais negra da economia e do emprego para os próximos anos. No primeiro caso, 95 por cento dos portugueses têm uma visão pessimista - o pior número dos 25. Dir-se-ia que as condições parecem maduras para um discurso de verdade que levasse os eleitores a fazer as suas escolhas com base numa percepção mais verdadeira da realidade. Mas, ao mesmo tempo, o efeito IKEA também lá está expresso: quando se trata da sua própria situação individual, os portugueses que têm emprego estão razoavelmente confiantes na sua manutenção e na estabilidade da sua própria situação económica. E nem sequer consideram que investir na sua educação e formação ou que canalizar colectivamente mais recursos para a I&D e para a inovação seja muito relevante - para si próprios e para o país.
Ou seja, ficamos com a sensação de que os portugueses acreditam que podem continuar a mobilar a segunda habitação no IKEA mantendo uma produtividade que é metade da média europeia, a maior taxa de insucesso escolar dos 25, a manutenção artificial das indústrias que estão condenadas, um sistema de segurança social tão intocável como um direito divino.
3. As elites, incluindo as políticas, têm perfeita consciência de que esta situação é insustentável e que é também grande o risco que colectivamente corremos no curto prazo de nos auto-condenarmos à estagnação prolongada que nos afastará inexoravelmente dos padrões europeus. O que deveriam estar, pois, a discutir seria as formas de evitar esse risco, traduzidas em diferentes propostas partidárias para inverter a situação.
Na filosofia geral do programa do PS há um caminho que pode resumir-se assim - apostar tudo na criação de condições para que as ilhas de excelência da economia do país (que já existem mas que ainda não constituem a massa crítica necessária para alterar qualitativamente o nosso padrão de desenvolvimento) se possam expandir progressivamente; transferir e optimizar recursos para os sectores que potenciam essa mudança e que são a investigação científica e tecnológica, a educação, formação, a inovação; ganhar eficiência nos serviços públicos, preservando no geral o modelo universal.
Ouvindo Sócrates, só com uma enorme imaginação conseguimos lá chegar. Dizer que é preciso canalizar recursos do Estado para os idosos com rendimentos inferiores a 300 euros não é errado. Nenhuma sociedade decente pode ficar inactiva perante esta realidade, que todos sabemos que existe sem precisar de estatísticas, esperando que as velhas redes tradicionais da vizinhança, da família ou da paróquia resolvam o problema. Mas era preciso que Sócrates estabelecesse uma escala de prioridades, explicando quem iria perder alguma coisa.
A filosofia do programa do PSD deveria ser diferente, se continuasse a seguir o modelo barrosista - um Estado menos interventor em matéria de mudança de padrão de desenvolvimento, centrando os incentivos na redução dos impostos e deixando que as empresas façam o resto; e, consequentemente, disposto a reduzir significativamente as despesas públicas, incluindo a privatização de sectores importantes da segurança social. O modelo de Santana é mais parecido com o do PCP: se for preciso, acciona-se a cláusula de salvaguarda do acordo de liberalização do comércio dos têxteis; ninguém tocará nos direitos adquiridos de ninguém; ou, então, num toque de modernidade mais ao estilo "bloquista", anunciando que está tudo em aberto, da clonagem à eutanásia, "you name it"...
Em suma, em vez de estarmos a debater políticas estamos a falar de milagres. Do milagre da transformação da Função Pública sem despedir ninguém, sem congelar salários ou promoções, sem quebrar imobilismos e direitos adquiridos. Do milagre da alteração do nosso padrão de desenvolvimento sem deixar fechar indústrias têxteis nem aumentar o desemprego na construção civil. Do milagre do combate ao tremendo insucesso escolar, que nos está a condenar a prazo, sem alterar profundamente o modelo centralizador e irresponsabilizador que continua a vigorar em Portugal, apesar das sucessivas reformas.
Não admira, pois, que tudo se meça na televisão em termos de decibéis dos comícios ou de litros de suor vertidos, de empatia televisiva ou da cor da gravata dos líderes - entre o "tijolo" ousado e o "azul-bébé" mais para o clássico.
4. Tinha de ser assim? Quando, em 1983, fiz a cobertura da campanha de Mário Soares, lembro-me como se fosse hoje que o então líder do PS começava todos os comícios com uma mesma e única frase: "Só voz posso prometer a austeridade". É verdade que, nessa altura, Soares tinha uma meta a propor aos portugueses que era a Europa. É verdade que Portugal não era ainda membro da UE nem do euro e que, por isso, o desequilíbrio assustador das contas externas tinha consequências muito mais graves. Mas o essencial é que havia um líder determinado em fazer o que era preciso para colocar o país no caminho do futuro. Quando, em 1987, acompanhei a campanha que conduziu Cavaco Silva à primeira maioria absoluta, as escolhas eram outras, muito menos dramáticas mas, mesmo assim, decisivas. Com o país integrado na Europa, havia outro conforto mas também outro tipo de rupturas a fazer. Mais de natureza ideológica e de urgência de alteração do modelo económico "nacionalizado" que a revolução deixara. Não me lembro de Cavaco ter feito uma campanha de meias palavras para agradar a gregos e troianos. Lembro-me da polarização de opções e de uma tremenda mobilização do eleitorado. Não foram precisas sondagens para antecipar maioria absoluta.
Monday, February 07, 2005
Choque Horário por GRAÇ�A FRANCO
Choque Horário
Por GRAÇA FRANCO
Público, Segunda-feira, 07 de Fevereiro de 2005
Há quatro anos, estava eu em Bruxelas e a dar os meus primeiros passos nestas crónicas, escrevi aqui um texto intitulado "trés bien pour un portugais!" Nele advogava como "grande batalha nacional" a luta pela pontualidade. Dizia então: "não é a reforma fiscal, nem a mudança do sistema nacional de saúde nem sequer a reforma da administração pública! A grande batalha nacional é a da pontualidade. Não podemos ser simplesmente pontuais à saída, temos de nos transformar em autênticos relógios de ponto seja qual for a situação. (...) Trata-se de evitar a humilhação internacional. Com sorte daqui a cem anos hão-de reconhecer-nos o esforço".
Volto hoje à carga. Não na perspectiva "estrangeirada" que então justificava a minha prosa. Cansada de ser injustamente vista como um mero representante daqueles povos tão desorganizados que, " nunca chegam a horas e nem sequer conseguem sair a tempo porque são incapazes de realizar as respectivas tarefas no horário previsto".
Retomo o tema porque quatro anos passados, e na perspectiva estritamente doméstica, continuo convencida de que um simples esforço colectivo para cumprir horários poderia traduzir-se num verdadeiro choque de gestão (à PSD), contribuir para um acréscimo de produtividade muito superior ao previsto no choque tecnológico (à PS) e constituir um importantíssimo choque de valores (à PP).
Lembrei-me disso, de novo, há uma semana. Era Domingo. Precisava de comprar um presente e sabia de uma loja cheia de coisas originais aberta de manhã na avenida de Roma. De regresso do quiosque de jornais passei por lá. Estavam três graus. Colei com as crianças os narizes à porta e lá descortinámos uma impassível empregada afadigada a marcar preços. Olhou-nos superiormente, de soslaio, sem se dignar aproximar-se da porta onde um papelinho anunciava a abertura aos fins-de-semana das 10 às 19, com intervalo para almoço das 13 às 14. Faltavam sete minutos para a abertura e não se vislumbrava simpatia suficiente para uma confortável espera no interior. Enregelados optámos por voltar às 14. Cinco minutos depois da hora anunciada estávamos de regresso. A porta continuava fechada. Agora, eram duas as afadigadas formiguinhas no interior. Nem um olhar para os nossos narizes recolados ao vidro. Dessa vez bati furiosamente. Uma das meninas devolveu um olhar enfastiado e fez com a mão um gesto displicente: "está fechado!" - leio-lhe nos lábios.
Não desisto. Devia estar aberto! Quase grito, apontando para o papel afixado. A pequena aproxima-se da porta, incomodada com a insistência, como quem odeia a simples possibilidade de ter clientes: Qual horário?
Percebo que, pela primeira vez, intui a existência da folhinha afixada. Não abre a porta, não pede desculpa pelo incómodo. Não lhe passa pela cabeça perguntar em que nos pode ser útil. Não explica que decidiram passar a fechar ao Domingo mas se esqueceram de alterar o horário afixado. Fora de causa imaginar que esse esquecimento me dava o direito de exigir que estivessem pelo menos dispostos a vender-me (excepcionalmente!) qualquer coisinha. Nada, a menina limitou-se a virar com desprezo o papelote confirmando-lhe o teor e a vociferar de novo entre dentes: " o horário? Pois! Está mal!".
"Então é melhor alterar o papel!" grito do lado de fora. Passei, de novo, por lá ontem. O papel foi efectivamente alterado. Passou a indicar encerrado aos Domingos. Menos mal. Sempre evitará, a outros, o meu atraso da semana passada, depois de uma correria desenfreada pelos centros comerciais da zona onde nada parecia tão giro como a prenda deixada por detrás da montra e da porta fechada. Por melhor que seja o produto com esta atenção ao cliente, antecipo-lhe sobretudo um lindo enterro.
Percebem o ponto? Ligar a horários é apenas a gota de água de uma verdadeira revolução cultural. Só por isso, e porque estamos em campanha eleitoral, deixo aqui de novo a minha sugestão cívica capaz de mudar o país "em três tempos!": já, imediatamente e a partir de agora. O tema nos programas partidários talvez pudesse surgir através da proposta de criminalização do atraso, sujeito sempre que possível a pena de multa. Vendido como forma original de aumentar as receitas e reequilibrar as contas sem recurso aos impostos!
O único custo seria o de uma grande campanha cívica do estilo daquela contra a pirataria audiovisual. Qualquer coisa do género: "não cospe no chão? Não fala com a boca cheia? Não diz palavrões? Então porque é que chega atrasado?!"
Tinha duas vantagens: ajudava a interiorizar umas regras de boa educação em desuso e punha o dedo na ferida na questão da falta de cortesia. Escusava de se dizer o resto que é muito mais difícil de explicar, e virtualmente fracturante para alguns grupos de eleitores.
Não era preciso dizer que é um dever elementar dos trabalhadores trabalhar durante todo o tempo do seu horário de trabalho. Nem era preciso alertar para o dano colateral deste sistema de dislate horário que se traduz na exclusão das mulheres da vida política e as afasta dos cargos directivos. Como muito bem lembrava, ontem, a Dr. Leonor Beleza em entrevista à Pública, as mulheres são as únicas que, mesmo na condição de executivas, não podem dar-se ao luxo de não ter horários. Não só têm sempre um montão de coisas a fazer "depois das seis", como limitadas pelo facto dos infantários nem sempre terem hora certa para abrir mas todos terem hora certa para fechar.
Evitava também lembrar que o desprezo pelos horários permite a uma boa parte da população ser oficialmente detentora do dom da ubiquidade. Quando posso falar com o doutor? Ele vem à sexta-feira mas não tem hora certa porque também vai ao hospital. É questão de ir tentando. Afixados claramente os horários saberíamos que as horas de consulta nos dois sítios são exactamente iguais. Simplesmente umas vezes o doutor chega "um bocadinho atrasado ao consultório" e nas restantes "ligeiramente atrasado ao hospital". Há sempre "uma urgência" para desculpar tudo. A minha última visita ao médico estava marcada para as três por ordem de chegada. Às duas e meia perfilei-me à porta. Fui atendida perto das cinco por um senhor simpático e bonacheirão com quem ainda troquei umas palavrinhas sobre a situação política. Não me passou pela cabeça questionar o atraso, nem a ele desculpar-se pelo incómodo. Ir ao médico às três e sair às seis nem é mau...
Não são só os médicos. Há um sem-número de profissionais que já deviam estar num lado enquanto ainda é suposto permanecer no outro. Uma impossibilidade matemática só ultrapassada com o beneplácito de todos. Isto, para não falar do grupo que entra às nove para sair às nove e meia para tomar café. Regressa às onze para sair ao meio-dia. Almoça até às três e meia e está de saída às cinco.
Lembro-me de ter lido um artigo sobre gestão nos Estados Unidos onde se descrevia um conselho de administração de uma grande multinacional. Um executivo entrava esbaforido na reunião e pedia desculpa pelos "15 minutos de atraso". O presidente interrompia-o: "o seu atraso não foi de 15 minutos, mas de quatro horas!" "A reunião não estava marcada para as duas?", ripostava, o atrasado. "Precisamente. Ora, como estamos aqui dezasseis administradores há quinze minutos a esperar por si, o seu atraso corresponde a quatro horas de trabalho perdidas por esta empresa! Dada a média dos nossos salários implica um custo considerável".
Se contasse este episódio numa roda internacional haveria alguém a picar: "falta dizer que o administrador era o italiano! Porque tu és portuguesa!". Ficaria mais uma vez comprovada a nossa malapata reputativa.
Se cumpríssemos horários, a começar nos transportes públicos, e nos serviços do mesmo nome, mas estendendo isso a toda a sociedade, os dias efectivamente trabalhados subiriam em flecha. A produtividade disparava (ajudando a competitividade e a meta das exportações do PP). O crescimento económico iria atrás (tornando mais realistas algumas das metas do PS/PSD). O emprego subiria a seguir, tornando mais próxima a recuperação dos 150 mil postos de trabalho perdidos de que fala o Eng. Sócrates. Última vantagem: não custava um cêntimo!
Jornalista
Por GRAÇA FRANCO
Público, Segunda-feira, 07 de Fevereiro de 2005
Há quatro anos, estava eu em Bruxelas e a dar os meus primeiros passos nestas crónicas, escrevi aqui um texto intitulado "trés bien pour un portugais!" Nele advogava como "grande batalha nacional" a luta pela pontualidade. Dizia então: "não é a reforma fiscal, nem a mudança do sistema nacional de saúde nem sequer a reforma da administração pública! A grande batalha nacional é a da pontualidade. Não podemos ser simplesmente pontuais à saída, temos de nos transformar em autênticos relógios de ponto seja qual for a situação. (...) Trata-se de evitar a humilhação internacional. Com sorte daqui a cem anos hão-de reconhecer-nos o esforço".
Volto hoje à carga. Não na perspectiva "estrangeirada" que então justificava a minha prosa. Cansada de ser injustamente vista como um mero representante daqueles povos tão desorganizados que, " nunca chegam a horas e nem sequer conseguem sair a tempo porque são incapazes de realizar as respectivas tarefas no horário previsto".
Retomo o tema porque quatro anos passados, e na perspectiva estritamente doméstica, continuo convencida de que um simples esforço colectivo para cumprir horários poderia traduzir-se num verdadeiro choque de gestão (à PSD), contribuir para um acréscimo de produtividade muito superior ao previsto no choque tecnológico (à PS) e constituir um importantíssimo choque de valores (à PP).
Lembrei-me disso, de novo, há uma semana. Era Domingo. Precisava de comprar um presente e sabia de uma loja cheia de coisas originais aberta de manhã na avenida de Roma. De regresso do quiosque de jornais passei por lá. Estavam três graus. Colei com as crianças os narizes à porta e lá descortinámos uma impassível empregada afadigada a marcar preços. Olhou-nos superiormente, de soslaio, sem se dignar aproximar-se da porta onde um papelinho anunciava a abertura aos fins-de-semana das 10 às 19, com intervalo para almoço das 13 às 14. Faltavam sete minutos para a abertura e não se vislumbrava simpatia suficiente para uma confortável espera no interior. Enregelados optámos por voltar às 14. Cinco minutos depois da hora anunciada estávamos de regresso. A porta continuava fechada. Agora, eram duas as afadigadas formiguinhas no interior. Nem um olhar para os nossos narizes recolados ao vidro. Dessa vez bati furiosamente. Uma das meninas devolveu um olhar enfastiado e fez com a mão um gesto displicente: "está fechado!" - leio-lhe nos lábios.
Não desisto. Devia estar aberto! Quase grito, apontando para o papel afixado. A pequena aproxima-se da porta, incomodada com a insistência, como quem odeia a simples possibilidade de ter clientes: Qual horário?
Percebo que, pela primeira vez, intui a existência da folhinha afixada. Não abre a porta, não pede desculpa pelo incómodo. Não lhe passa pela cabeça perguntar em que nos pode ser útil. Não explica que decidiram passar a fechar ao Domingo mas se esqueceram de alterar o horário afixado. Fora de causa imaginar que esse esquecimento me dava o direito de exigir que estivessem pelo menos dispostos a vender-me (excepcionalmente!) qualquer coisinha. Nada, a menina limitou-se a virar com desprezo o papelote confirmando-lhe o teor e a vociferar de novo entre dentes: " o horário? Pois! Está mal!".
"Então é melhor alterar o papel!" grito do lado de fora. Passei, de novo, por lá ontem. O papel foi efectivamente alterado. Passou a indicar encerrado aos Domingos. Menos mal. Sempre evitará, a outros, o meu atraso da semana passada, depois de uma correria desenfreada pelos centros comerciais da zona onde nada parecia tão giro como a prenda deixada por detrás da montra e da porta fechada. Por melhor que seja o produto com esta atenção ao cliente, antecipo-lhe sobretudo um lindo enterro.
Percebem o ponto? Ligar a horários é apenas a gota de água de uma verdadeira revolução cultural. Só por isso, e porque estamos em campanha eleitoral, deixo aqui de novo a minha sugestão cívica capaz de mudar o país "em três tempos!": já, imediatamente e a partir de agora. O tema nos programas partidários talvez pudesse surgir através da proposta de criminalização do atraso, sujeito sempre que possível a pena de multa. Vendido como forma original de aumentar as receitas e reequilibrar as contas sem recurso aos impostos!
O único custo seria o de uma grande campanha cívica do estilo daquela contra a pirataria audiovisual. Qualquer coisa do género: "não cospe no chão? Não fala com a boca cheia? Não diz palavrões? Então porque é que chega atrasado?!"
Tinha duas vantagens: ajudava a interiorizar umas regras de boa educação em desuso e punha o dedo na ferida na questão da falta de cortesia. Escusava de se dizer o resto que é muito mais difícil de explicar, e virtualmente fracturante para alguns grupos de eleitores.
Não era preciso dizer que é um dever elementar dos trabalhadores trabalhar durante todo o tempo do seu horário de trabalho. Nem era preciso alertar para o dano colateral deste sistema de dislate horário que se traduz na exclusão das mulheres da vida política e as afasta dos cargos directivos. Como muito bem lembrava, ontem, a Dr. Leonor Beleza em entrevista à Pública, as mulheres são as únicas que, mesmo na condição de executivas, não podem dar-se ao luxo de não ter horários. Não só têm sempre um montão de coisas a fazer "depois das seis", como limitadas pelo facto dos infantários nem sempre terem hora certa para abrir mas todos terem hora certa para fechar.
Evitava também lembrar que o desprezo pelos horários permite a uma boa parte da população ser oficialmente detentora do dom da ubiquidade. Quando posso falar com o doutor? Ele vem à sexta-feira mas não tem hora certa porque também vai ao hospital. É questão de ir tentando. Afixados claramente os horários saberíamos que as horas de consulta nos dois sítios são exactamente iguais. Simplesmente umas vezes o doutor chega "um bocadinho atrasado ao consultório" e nas restantes "ligeiramente atrasado ao hospital". Há sempre "uma urgência" para desculpar tudo. A minha última visita ao médico estava marcada para as três por ordem de chegada. Às duas e meia perfilei-me à porta. Fui atendida perto das cinco por um senhor simpático e bonacheirão com quem ainda troquei umas palavrinhas sobre a situação política. Não me passou pela cabeça questionar o atraso, nem a ele desculpar-se pelo incómodo. Ir ao médico às três e sair às seis nem é mau...
Não são só os médicos. Há um sem-número de profissionais que já deviam estar num lado enquanto ainda é suposto permanecer no outro. Uma impossibilidade matemática só ultrapassada com o beneplácito de todos. Isto, para não falar do grupo que entra às nove para sair às nove e meia para tomar café. Regressa às onze para sair ao meio-dia. Almoça até às três e meia e está de saída às cinco.
Lembro-me de ter lido um artigo sobre gestão nos Estados Unidos onde se descrevia um conselho de administração de uma grande multinacional. Um executivo entrava esbaforido na reunião e pedia desculpa pelos "15 minutos de atraso". O presidente interrompia-o: "o seu atraso não foi de 15 minutos, mas de quatro horas!" "A reunião não estava marcada para as duas?", ripostava, o atrasado. "Precisamente. Ora, como estamos aqui dezasseis administradores há quinze minutos a esperar por si, o seu atraso corresponde a quatro horas de trabalho perdidas por esta empresa! Dada a média dos nossos salários implica um custo considerável".
Se contasse este episódio numa roda internacional haveria alguém a picar: "falta dizer que o administrador era o italiano! Porque tu és portuguesa!". Ficaria mais uma vez comprovada a nossa malapata reputativa.
Se cumpríssemos horários, a começar nos transportes públicos, e nos serviços do mesmo nome, mas estendendo isso a toda a sociedade, os dias efectivamente trabalhados subiriam em flecha. A produtividade disparava (ajudando a competitividade e a meta das exportações do PP). O crescimento económico iria atrás (tornando mais realistas algumas das metas do PS/PSD). O emprego subiria a seguir, tornando mais próxima a recuperação dos 150 mil postos de trabalho perdidos de que fala o Eng. Sócrates. Última vantagem: não custava um cêntimo!
Jornalista
Sunday, February 06, 2005
Professores indignados com regras de avaliação
DN 6 Fev 2005
Professores indignados com regras de avaliação
Possibilidade de os pais impedirem o chumbo dos filhos contestada por docentes açorianos
Olímpia Granada
Ponta Delgada
A publicação da Portaria n.º 92/2004 introduziu polémicas alterações às regras de avaliação dos alunos que frequentam nos Açores o 1.º Ciclo do Ensino Básico. Os professores ficaram particularmente indignados com a concessão, aos pais e encarregados de educação, do poder de recusarem a retenção dos seus educandos.
No diploma, o conceito de "ano de escolaridade" é praticamente abolido. O chamado "chumbo" deixa de ser possível no 1.º ano do Ensino Básico e, nos 2.º e 3. º anos, passa a estar dependente de quatro factores "Na certeza de que nos anos que ainda faltam (para acabar o ciclo) o aluno não vai atingir os objectivos"; da possibilidade de criar turmas que agrupem o mesmo nível de competências; de não ocorrer dupla repetência; e, por fim - motivo de toda a contestação -, que a decisão "seja do conhecimento do encarregado de educação e não mereça a sua oposição".
Fátima Garcia, do Sindicato dos Professores da Região Açores considerou esta medida "ofensiva da dignidade profissional" da classe, enquanto Fernando Fernandes, do Sindicato Democrático dos Professores, avisou que se está a "colocar nos pais uma competência para a qual tecnicamente não estão preparados". João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação, acrescentou "Não podemos pôr pais a decidirem contrariamente ao professor".
Álamo Meneses, secretário açoriano da Educação, defendeu a portaria, garantindo ao DN que esta não dá aos pais "o direito de determinar o nível de competência atingido", mas apenas o poder "de determinar se há ou não retenção administrativa". Este responsável defende que "à escola cabe descobrir e desenvolver talentos e não aplicar 'penas de morte' académicas em idade precoce" que conduzem a desistências. "Nos Açores, 500 alunos abandonam anualmente a escola sem o 9º ano", lembrou.
Exames. Todos os alunos dos 4.º, 6.º e 9.º anos vão já este ano prestar provas que contam para a avaliação final. Ao invés do continente, onde os exames só vão ocorrer no 9ª ano, as escolas e os professores é que vão determinar as transições de ciclo sem a imposição de uma "fórmula matemática". Por isso, os professores temem diferenças de critério.
Por outro lado, os sindicatos dão boa nota aos concursos regionais de colocação de professores. Nos Açores o ano lectivo começou na data prevista e o concurso para 2005/06 já decorre. Para um quadro global de 4630 lugares esperam-se entre dez a 15 mil concorrentes. O concurso assenta num suporte totalmente electrónico, produzido por uma empresa regional.
Possibilidade de os pais impedirem o chumbo dos filhos contestada por docentes açorianos
Olímpia Granada
Ponta Delgada
Arquivo DN -Amin Chaar
"Protegidos". Autoridades dizem que reprovações levam ao abandono
A publicação da Portaria n.º 92/2004 introduziu polémicas alterações às regras de avaliação dos alunos que frequentam nos Açores o 1.º Ciclo do Ensino Básico. Os professores ficaram particularmente indignados com a concessão, aos pais e encarregados de educação, do poder de recusarem a retenção dos seus educandos.
No diploma, o conceito de "ano de escolaridade" é praticamente abolido. O chamado "chumbo" deixa de ser possível no 1.º ano do Ensino Básico e, nos 2.º e 3. º anos, passa a estar dependente de quatro factores "Na certeza de que nos anos que ainda faltam (para acabar o ciclo) o aluno não vai atingir os objectivos"; da possibilidade de criar turmas que agrupem o mesmo nível de competências; de não ocorrer dupla repetência; e, por fim - motivo de toda a contestação -, que a decisão "seja do conhecimento do encarregado de educação e não mereça a sua oposição".
Fátima Garcia, do Sindicato dos Professores da Região Açores considerou esta medida "ofensiva da dignidade profissional" da classe, enquanto Fernando Fernandes, do Sindicato Democrático dos Professores, avisou que se está a "colocar nos pais uma competência para a qual tecnicamente não estão preparados". João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação, acrescentou "Não podemos pôr pais a decidirem contrariamente ao professor".
Álamo Meneses, secretário açoriano da Educação, defendeu a portaria, garantindo ao DN que esta não dá aos pais "o direito de determinar o nível de competência atingido", mas apenas o poder "de determinar se há ou não retenção administrativa". Este responsável defende que "à escola cabe descobrir e desenvolver talentos e não aplicar 'penas de morte' académicas em idade precoce" que conduzem a desistências. "Nos Açores, 500 alunos abandonam anualmente a escola sem o 9º ano", lembrou.
Exames. Todos os alunos dos 4.º, 6.º e 9.º anos vão já este ano prestar provas que contam para a avaliação final. Ao invés do continente, onde os exames só vão ocorrer no 9ª ano, as escolas e os professores é que vão determinar as transições de ciclo sem a imposição de uma "fórmula matemática". Por isso, os professores temem diferenças de critério.
Por outro lado, os sindicatos dão boa nota aos concursos regionais de colocação de professores. Nos Açores o ano lectivo começou na data prevista e o concurso para 2005/06 já decorre. Para um quadro global de 4630 lugares esperam-se entre dez a 15 mil concorrentes. O concurso assenta num suporte totalmente electrónico, produzido por uma empresa regional.
Professores indignados com regras de avaliação
Possibilidade de os pais impedirem o chumbo dos filhos contestada por docentes açorianos
Olímpia Granada
Ponta Delgada
A publicação da Portaria n.º 92/2004 introduziu polémicas alterações às regras de avaliação dos alunos que frequentam nos Açores o 1.º Ciclo do Ensino Básico. Os professores ficaram particularmente indignados com a concessão, aos pais e encarregados de educação, do poder de recusarem a retenção dos seus educandos.
No diploma, o conceito de "ano de escolaridade" é praticamente abolido. O chamado "chumbo" deixa de ser possível no 1.º ano do Ensino Básico e, nos 2.º e 3. º anos, passa a estar dependente de quatro factores "Na certeza de que nos anos que ainda faltam (para acabar o ciclo) o aluno não vai atingir os objectivos"; da possibilidade de criar turmas que agrupem o mesmo nível de competências; de não ocorrer dupla repetência; e, por fim - motivo de toda a contestação -, que a decisão "seja do conhecimento do encarregado de educação e não mereça a sua oposição".
Fátima Garcia, do Sindicato dos Professores da Região Açores considerou esta medida "ofensiva da dignidade profissional" da classe, enquanto Fernando Fernandes, do Sindicato Democrático dos Professores, avisou que se está a "colocar nos pais uma competência para a qual tecnicamente não estão preparados". João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação, acrescentou "Não podemos pôr pais a decidirem contrariamente ao professor".
Álamo Meneses, secretário açoriano da Educação, defendeu a portaria, garantindo ao DN que esta não dá aos pais "o direito de determinar o nível de competência atingido", mas apenas o poder "de determinar se há ou não retenção administrativa". Este responsável defende que "à escola cabe descobrir e desenvolver talentos e não aplicar 'penas de morte' académicas em idade precoce" que conduzem a desistências. "Nos Açores, 500 alunos abandonam anualmente a escola sem o 9º ano", lembrou.
Exames. Todos os alunos dos 4.º, 6.º e 9.º anos vão já este ano prestar provas que contam para a avaliação final. Ao invés do continente, onde os exames só vão ocorrer no 9ª ano, as escolas e os professores é que vão determinar as transições de ciclo sem a imposição de uma "fórmula matemática". Por isso, os professores temem diferenças de critério.
Por outro lado, os sindicatos dão boa nota aos concursos regionais de colocação de professores. Nos Açores o ano lectivo começou na data prevista e o concurso para 2005/06 já decorre. Para um quadro global de 4630 lugares esperam-se entre dez a 15 mil concorrentes. O concurso assenta num suporte totalmente electrónico, produzido por uma empresa regional.
Possibilidade de os pais impedirem o chumbo dos filhos contestada por docentes açorianos
Olímpia Granada
Ponta Delgada
Arquivo DN -Amin Chaar
"Protegidos". Autoridades dizem que reprovações levam ao abandono
A publicação da Portaria n.º 92/2004 introduziu polémicas alterações às regras de avaliação dos alunos que frequentam nos Açores o 1.º Ciclo do Ensino Básico. Os professores ficaram particularmente indignados com a concessão, aos pais e encarregados de educação, do poder de recusarem a retenção dos seus educandos.
No diploma, o conceito de "ano de escolaridade" é praticamente abolido. O chamado "chumbo" deixa de ser possível no 1.º ano do Ensino Básico e, nos 2.º e 3. º anos, passa a estar dependente de quatro factores "Na certeza de que nos anos que ainda faltam (para acabar o ciclo) o aluno não vai atingir os objectivos"; da possibilidade de criar turmas que agrupem o mesmo nível de competências; de não ocorrer dupla repetência; e, por fim - motivo de toda a contestação -, que a decisão "seja do conhecimento do encarregado de educação e não mereça a sua oposição".
Fátima Garcia, do Sindicato dos Professores da Região Açores considerou esta medida "ofensiva da dignidade profissional" da classe, enquanto Fernando Fernandes, do Sindicato Democrático dos Professores, avisou que se está a "colocar nos pais uma competência para a qual tecnicamente não estão preparados". João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação, acrescentou "Não podemos pôr pais a decidirem contrariamente ao professor".
Álamo Meneses, secretário açoriano da Educação, defendeu a portaria, garantindo ao DN que esta não dá aos pais "o direito de determinar o nível de competência atingido", mas apenas o poder "de determinar se há ou não retenção administrativa". Este responsável defende que "à escola cabe descobrir e desenvolver talentos e não aplicar 'penas de morte' académicas em idade precoce" que conduzem a desistências. "Nos Açores, 500 alunos abandonam anualmente a escola sem o 9º ano", lembrou.
Exames. Todos os alunos dos 4.º, 6.º e 9.º anos vão já este ano prestar provas que contam para a avaliação final. Ao invés do continente, onde os exames só vão ocorrer no 9ª ano, as escolas e os professores é que vão determinar as transições de ciclo sem a imposição de uma "fórmula matemática". Por isso, os professores temem diferenças de critério.
Por outro lado, os sindicatos dão boa nota aos concursos regionais de colocação de professores. Nos Açores o ano lectivo começou na data prevista e o concurso para 2005/06 já decorre. Para um quadro global de 4630 lugares esperam-se entre dez a 15 mil concorrentes. O concurso assenta num suporte totalmente electrónico, produzido por uma empresa regional.
Friday, February 04, 2005
Vivemos Paralisados pela Inveja José Gil
Público, Domingo, 16 de Janeiro de 2005
Paulo Moura
Pública - Depois da leitura do seu livro, é impossível não se ficar deprimido.
José Gil - Hesitei muito antes de o publicar. Decidi fazê-lo, porque acho que estas coisas devem dizer-se publicamente, e não apenas em circuitos fechados, como habitualmente. E também porque penso ter encontrado um fio condutor, que dá
unidade a tudo o que afirmo.
P. - É aquilo a que chama "não inscrição". Que significa?
R. - Significa que os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma. Ainda outro exemplo: o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento.
P. - E, não tendo acontecido, ninguém é responsável.
R. - Exactamente. Pode-se continuar como se nada se tivesse passado. Os acontecimentos não se inscrevem em nós, nem nas nossas vidas, nem nós nos inscrevemos na História. Por isso, em Portugal nada acontece.
P. - Isso vem de onde?
R. - Do medo. E da falta da ideia de futuro. Vivemos num presente que se perpetua. Não se inscreve em nós o futuro nem o passado, a História. Porque temos medo.
P. - E de onde vem o medo?
R. - Uma vez fiz essa pergunta a José Mattoso. Perguntei-lhe se vinha do salazarismo. Ele respondeu: "Muito antes disso." Mas não precisou de onde. Acho que ninguém sabe. Claro que no chamado "antigo regime", ou no feudalismo, imperava um medo real, físico.
P. - Mas isso acontecia em toda a Europa. Específico de Portugal é esse medo não ter cessado?
R. - Sim. Existiu durante o salazarismo, que vivia do medo. Tínhamos medo de tudo.
P. - Mas era um medo hierárquico, de cima para baixo. Como se transformou num medo do nosso semelhante?
R. - Acho que no salazarismo já havia um medo do semelhante, além do hierárquico, que desapareceu, porque estamos numa democracia. Mas herdámos o medo, que se transformou. Acho que a principal razão foi por que não criámos suficientes instrumentos de expressão.
P. - É através da expressão que nos podemos livrar do medo?
R. - Nós temos uma pobreza enorme de expressão em relação à nossa existência. O que sabemos de nós, hoje, é pouquíssimo. Por exemplo: o que uma mulher pode sofrer, com a sua condição de inferioridade social, com os dramas domésticos... Tudo o que se diz, mesmo o que aparece na literatura, não exprime o que ela poderia sentir, e acaba por fazer com que ela não possa sentir o que verdadeiramente sente.
P. - Não pode sentir, porque não o pode exprimir?
R. - Sim. A expressão abre para o fundo, não apenas para fora. Mas nós estamos agarrados a um texto e não temos forças para sair dele.
P. - Uma espécie de norma?
R. - É o texto da sociedade normalizada, do bom senso, do política, social e afectivamente correcto. Assisti há dias a uma discussão de um casal, num jardim. O marido dizia-lhe: "Não aqui! Não aqui!" E a mulher calava-se logo. Temos um texto que nos diz o que podemos viver.
P. - É o medo que nos impede de rasgar esse texto?
R. - Nós temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: "Que bom o que tu fizeste. Estou muito contente." Não. Vão-nos decerto criticar. Isso cria logo um medo que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. Bom senso.
P. - Mas a prudência e o bom senso poderiam ser atitudes positivas, para nos guiarem na acção...
R. - Qual acção? A prudência paralisa a acção.
P. - Então não é uma verdadeira prudência.
R. - Pois não. A verdadeira prudência seria uma estratégia para medir e modular a acção, à medida que ela se desenrola. Mas nós não queremos é agir. Porque a sociedade portuguesa, ao contrário de outras, é fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias, o que é um horror. Conscientes da imagem que possam produzir, da sua presença como imagem nos outros. Isso é paralisante.
P. - Damos muita importância à nossa imagem?
R. - É uma obsessão. Estamos sempre a falar da auto-estima, esse termo horroroso.
P. - O que há de errado com a auto-estima?
R. - Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Mas, em Portugal, não existe um "fora".
P. - Isso quer dizer que não existe um espaço público?
R. - Não, não existe. O salazarismo extinguiu-o. Depois do 25 de Abril, passámos do zero para o máximo de expressão. Mas não tínhamos os instrumentos para essa expressão. Por isso, as forças reais do poder-saber, políticas, voltaram a dominar. Toda a nossa expressão individual, social, passou a reduzir-se ao discurso político. E no espaço público instalou-se em força um dispositivo que ocupou o lugar todo: a televisão, e os "media" em geral.
P. - Os "media" não são espaço público? Funcionam em circuito fechado?
R. - Movem-se em circuito fechado. Têm uma acção de absorção. Só se existe se se aparecer na televisão. Mas estar e aparecer na televisão não é a mesma coisa do que viver a vida, na materialidade das ruas e do tempo.
P. - Mas isso não é um fenómeno exclusivamente português.
R. - Não, mas em Portugal a televisão criou um espaço de imagem antes de termos passado por aquilo a que podemos chamar um "espaço de terrível liberdade", de experimentação, de inscrição, que foi a modernidade.
P. - Houve um salto. Mas isso nunca se vai recuperar.
R. - Com certeza que não se vai voltar atrás. Mas é preciso recuperar aquilo que nos é sugado por esse espaço de imagem e que é a vida dos corpos. Os acontecimentos da existência, no que têm de invenção. Na televisão tudo está formatado, não há imprevisto, encontro. O acontecimento é o resultado de um encontro. Mas nós temos medo do acontecimento. Medo da mudança, medo do futuro, medo do julgamento dos outros, medo de não sermos capazes. Medo de não estar à altura do acontecimento.
P. - É um medo da responsabilidade, um medo infantil?
R. - Sim, a nossa sociedade tem algo de infantil, mas sem a vivacidade das crianças. É a outro nível que temos de ter vida. O português não é um adulto autónomo por si. Uma comunidade de crianças não é o mesmo que uma comunidade de adultos. Nós ainda não chegámos à comunidade de adultos. Há pormenores... o tratamento por "pá", por exemplo...
P. - Traduz uma grande familiaridade, ou é outra coisa?
R. - É o reconhecimento de que o homem é nu, para usar uma terminologia de Hanna Arendt.
P. - Serve para colocar o outro ao mesmo nível, como que a dizer-lhe: a mim não me enganas?
R. - Sim, e somos iguais. Vou contar-lhe uma cena que me espantou: quando o Jorge Sampaio era presidente da câmara, apareceu na televisão a passear pelo Casal Ventoso com uma série de delegados de Bruxelas. Quando foi abordado por um drogado, disse-lhe: "É pá, afasta-te, que estou aqui a ver se sacamos algum dinheiro a estes tipos." Isto é extraordinário.
P. - Não resistiu a estabelecer uma cumplicidade com o drogado.
R. - Sim, como se ele fosse da mesma...
P. - Laia.
R. - Exactamente, laia. Nós, que somos iguais, inferiores, estamos a ver se sacamos... O Sampaio é muito expressivo de certas coisas portuguesas.
P. - Cultivamos uma intimidade forçada, pouco natural, promíscua?
R. - Sim, há uma promiscuidade social que se deve à falta de autonomia individual. O salazarismo infantilizou-nos, fez-nos viver num mundo fictício e sugou-nos todas as forças. Eu não quero culpar o salazarismo por tudo, mas a verdade é que foram 48 anos de não inscrição, de não acontecimento. E herdámos isso. Ainda não recuperámos. O ambiente em que vivemos não nos permite ter intensidade de vida, de pensamento, de acção, para que possamos inscrever-nos na nossa própria vida, na Europa, no mundo global, etc. Uma vez assisti a uma entrevista com o jovem físico português, João Magueijo, que vive em Inglaterra. A repórter perguntava-lhe: "Você trabalha com matemática, não em laboratórios. Não podia ter descoberto essas teorias em Portugal?" E ele respondeu imediatamente: "De maneira nenhuma. Sabe porquê? Por causa da intensidade das trocas de pensamento em que eu vivo quotidianamente. É isso que me faz pensar."
P. - A influência "do fora".
R. - Absolutamente. É essa intensidade que nos falta. Nós somos tão inteligentes como os outros. Somos inventivos, produzimos. Mas caímos nisto.
P. - A incapacidade de agir vem de dentro, do nosso medo. Mas, quando alguém tenta, o que acontece? Temos a aprovação ou a sanção dos outros?
R. - Uma sanção terrível. É o mecanismo da inveja.
P. - Não agimos, mas também não deixamos ninguém agir. Como funciona esse mecanismo?
R. - O mecanismo da inveja tem a ver com práticas da magia, o "mau olhado", o "quebranto", e também com o que em psiquiatria se chama "transferência psicótica", ou seja, o que passa de uma pessoa para outra e não é verbal. Imagine que você chega ao pé dos seus colegas e diz: "Fiz uma reportagem extraordinária!" E não está a falar por vaidade, mas objectivamente. Mas logo o tipo que está a seu lado diz: "Ai sim? Pois muito bem." E com este tom introduz em si um afecto inconsciente que o vai paralisar.
P. - É um mecanismo semelhante ao do ostracismo?
R. - Exactamente. Cria-se um ambiente que é hostil à iniciativa e que tem um efeito sobre a própria vontade de querer fazer. Isto é generalizado em Portugal. A inveja é mais do que um sentimento. É um sistema. E não é apenas individual: criam-se grupos de inveja. Várias pessoas manifestam-se simultaneamente contra a sua iniciativa. Cria-se um ambiente de inveja. Um grupo determinado age segundo os regulamentos da inveja.
P. - É uma atitude concertada ou inconsciente?
R. - Pode ser concertada ou inconsciente, mas funciona. Não se permite que numa empresa, num escritório, ninguém ultrapasse a linha da média baixa. Vivemos reconhecendo-nos como irmãos na desgraça.
P. - Mas por que se faz isso? Não seria do interesse de todos encorajar cada um a fazer melhor?
R. - Sim, mas há um efeito de espelhos. Se você faz alguma coisa de forte, isso deveria ser um estímulo para mim, para fazer algo também forte. Mas não. Vê-lo forte diminui-me a mim. Vê-lo com intensidade, com iniciativa, faz-me pensar, por causa da imagem que tenho de mim, na minha pobre condição, em que não faço nada. E faço tudo para destruir a sua iniciativa, para que eu possa viver. Você sufoca-me com a sua energia. Terrível isto. Uma pessoa sufoca a outra com a sua energia. E o resultado é que estamos todos sem energia.
P. - Mas para que essa acção da inveja tenha efeito não é necessário que a "vítima" esteja vulnerável?
R. - Precisamente. Um etnólogo pôs-me essa questão. Disse: só se é afectado pela inveja quando se quer, quando se está num estado determinado. Eu respondo: sim, em quem tem a pele grossa não entra nada. São as pessoas porosas que são fragéis. E isso é típico de Portugal. Os portugueses são sensíveis, porque não são maduros. Isso poderia ser maravilhoso. Somos pessoas de pequenas percepções, de intuições imediatas, e por isso sentimos quando alguém está a torcer para que não avancemos. Faz curto-circuito, fecha o espaço das possibilidades. É um sistema.
P. - Uma espécie de acordo tácito para que ninguém aja, ninguém ameace, e possamos viver em paz.
R. - Precisamente. Para que possamos viver em paz. Porque temos medo do conflito.
P. - Daí os "brandos costumes"?
R. - Recusamos o conflito a céu aberto, mas temos uma violência incrível na nossa sociedade. Violência doméstica em relação às crianças. Os brandos costumes escondem uma violência subterrânea enorme.
Um dos maiores pensadores de todo o mundo
José Gil, 65 anos, autor e professor catedrático de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, define-se como especialista no "pensamento filosófico do corpo". Entre a regência de várias cadeiras de Filosofia contemporânea e a orientação do mestrado em Estética, encontra tempo para a
escrita. É autor de numerosos ensaios, artigos em revistas culturais, entradas em enciclopédias e livros de reflexão filosófica. Os seus temas vão desde Fernando Pessoa e Salazar até à dança e a pintura. Em 1990 ganhou, com a obra "Cemitério dos Desejos", o Prémio Jacinto Prado Coelho. Recentemente escreveu "A Profundidade e a Superfície - Ensaio sobre 'o Principezinho', de
Saint-Exupéry" e, agora, "Portugal, Hoje - O Medo de Existir".
Antes de ir para França, onde se licenciou em Filosofia, na Universidade de Sorbonne, em 1968, estudou Matemática na Faculdade de Ciências de Lisboa. Em Paris, foi aluno, admirador e amigo do filósofo Gilles Deleuze. Em 1982
completou o doutoramento, na Universidade de Paris 7, com uma tese sobre "O Corpo como Campo de Poder". Ensinou no Collège International de Philosophie, em Paris, na New School for Dance Development, em Amesterdão. Regressou a Portugal em 1976, para desempenhar o cargo de adjunto do secretário de Estado do Ensino Superior e da Investigação Científica do VI Governo Provisório. A última edição da revista francesa "Nouvel Observateur" considera-o um dos "25 grandes pensadores de todo o mundo"
Paulo Moura
Pública - Depois da leitura do seu livro, é impossível não se ficar deprimido.
José Gil - Hesitei muito antes de o publicar. Decidi fazê-lo, porque acho que estas coisas devem dizer-se publicamente, e não apenas em circuitos fechados, como habitualmente. E também porque penso ter encontrado um fio condutor, que dá
unidade a tudo o que afirmo.
P. - É aquilo a que chama "não inscrição". Que significa?
R. - Significa que os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma. Ainda outro exemplo: o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento.
P. - E, não tendo acontecido, ninguém é responsável.
R. - Exactamente. Pode-se continuar como se nada se tivesse passado. Os acontecimentos não se inscrevem em nós, nem nas nossas vidas, nem nós nos inscrevemos na História. Por isso, em Portugal nada acontece.
P. - Isso vem de onde?
R. - Do medo. E da falta da ideia de futuro. Vivemos num presente que se perpetua. Não se inscreve em nós o futuro nem o passado, a História. Porque temos medo.
P. - E de onde vem o medo?
R. - Uma vez fiz essa pergunta a José Mattoso. Perguntei-lhe se vinha do salazarismo. Ele respondeu: "Muito antes disso." Mas não precisou de onde. Acho que ninguém sabe. Claro que no chamado "antigo regime", ou no feudalismo, imperava um medo real, físico.
P. - Mas isso acontecia em toda a Europa. Específico de Portugal é esse medo não ter cessado?
R. - Sim. Existiu durante o salazarismo, que vivia do medo. Tínhamos medo de tudo.
P. - Mas era um medo hierárquico, de cima para baixo. Como se transformou num medo do nosso semelhante?
R. - Acho que no salazarismo já havia um medo do semelhante, além do hierárquico, que desapareceu, porque estamos numa democracia. Mas herdámos o medo, que se transformou. Acho que a principal razão foi por que não criámos suficientes instrumentos de expressão.
P. - É através da expressão que nos podemos livrar do medo?
R. - Nós temos uma pobreza enorme de expressão em relação à nossa existência. O que sabemos de nós, hoje, é pouquíssimo. Por exemplo: o que uma mulher pode sofrer, com a sua condição de inferioridade social, com os dramas domésticos... Tudo o que se diz, mesmo o que aparece na literatura, não exprime o que ela poderia sentir, e acaba por fazer com que ela não possa sentir o que verdadeiramente sente.
P. - Não pode sentir, porque não o pode exprimir?
R. - Sim. A expressão abre para o fundo, não apenas para fora. Mas nós estamos agarrados a um texto e não temos forças para sair dele.
P. - Uma espécie de norma?
R. - É o texto da sociedade normalizada, do bom senso, do política, social e afectivamente correcto. Assisti há dias a uma discussão de um casal, num jardim. O marido dizia-lhe: "Não aqui! Não aqui!" E a mulher calava-se logo. Temos um texto que nos diz o que podemos viver.
P. - É o medo que nos impede de rasgar esse texto?
R. - Nós temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: "Que bom o que tu fizeste. Estou muito contente." Não. Vão-nos decerto criticar. Isso cria logo um medo que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. Bom senso.
P. - Mas a prudência e o bom senso poderiam ser atitudes positivas, para nos guiarem na acção...
R. - Qual acção? A prudência paralisa a acção.
P. - Então não é uma verdadeira prudência.
R. - Pois não. A verdadeira prudência seria uma estratégia para medir e modular a acção, à medida que ela se desenrola. Mas nós não queremos é agir. Porque a sociedade portuguesa, ao contrário de outras, é fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias, o que é um horror. Conscientes da imagem que possam produzir, da sua presença como imagem nos outros. Isso é paralisante.
P. - Damos muita importância à nossa imagem?
R. - É uma obsessão. Estamos sempre a falar da auto-estima, esse termo horroroso.
P. - O que há de errado com a auto-estima?
R. - Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Mas, em Portugal, não existe um "fora".
P. - Isso quer dizer que não existe um espaço público?
R. - Não, não existe. O salazarismo extinguiu-o. Depois do 25 de Abril, passámos do zero para o máximo de expressão. Mas não tínhamos os instrumentos para essa expressão. Por isso, as forças reais do poder-saber, políticas, voltaram a dominar. Toda a nossa expressão individual, social, passou a reduzir-se ao discurso político. E no espaço público instalou-se em força um dispositivo que ocupou o lugar todo: a televisão, e os "media" em geral.
P. - Os "media" não são espaço público? Funcionam em circuito fechado?
R. - Movem-se em circuito fechado. Têm uma acção de absorção. Só se existe se se aparecer na televisão. Mas estar e aparecer na televisão não é a mesma coisa do que viver a vida, na materialidade das ruas e do tempo.
P. - Mas isso não é um fenómeno exclusivamente português.
R. - Não, mas em Portugal a televisão criou um espaço de imagem antes de termos passado por aquilo a que podemos chamar um "espaço de terrível liberdade", de experimentação, de inscrição, que foi a modernidade.
P. - Houve um salto. Mas isso nunca se vai recuperar.
R. - Com certeza que não se vai voltar atrás. Mas é preciso recuperar aquilo que nos é sugado por esse espaço de imagem e que é a vida dos corpos. Os acontecimentos da existência, no que têm de invenção. Na televisão tudo está formatado, não há imprevisto, encontro. O acontecimento é o resultado de um encontro. Mas nós temos medo do acontecimento. Medo da mudança, medo do futuro, medo do julgamento dos outros, medo de não sermos capazes. Medo de não estar à altura do acontecimento.
P. - É um medo da responsabilidade, um medo infantil?
R. - Sim, a nossa sociedade tem algo de infantil, mas sem a vivacidade das crianças. É a outro nível que temos de ter vida. O português não é um adulto autónomo por si. Uma comunidade de crianças não é o mesmo que uma comunidade de adultos. Nós ainda não chegámos à comunidade de adultos. Há pormenores... o tratamento por "pá", por exemplo...
P. - Traduz uma grande familiaridade, ou é outra coisa?
R. - É o reconhecimento de que o homem é nu, para usar uma terminologia de Hanna Arendt.
P. - Serve para colocar o outro ao mesmo nível, como que a dizer-lhe: a mim não me enganas?
R. - Sim, e somos iguais. Vou contar-lhe uma cena que me espantou: quando o Jorge Sampaio era presidente da câmara, apareceu na televisão a passear pelo Casal Ventoso com uma série de delegados de Bruxelas. Quando foi abordado por um drogado, disse-lhe: "É pá, afasta-te, que estou aqui a ver se sacamos algum dinheiro a estes tipos." Isto é extraordinário.
P. - Não resistiu a estabelecer uma cumplicidade com o drogado.
R. - Sim, como se ele fosse da mesma...
P. - Laia.
R. - Exactamente, laia. Nós, que somos iguais, inferiores, estamos a ver se sacamos... O Sampaio é muito expressivo de certas coisas portuguesas.
P. - Cultivamos uma intimidade forçada, pouco natural, promíscua?
R. - Sim, há uma promiscuidade social que se deve à falta de autonomia individual. O salazarismo infantilizou-nos, fez-nos viver num mundo fictício e sugou-nos todas as forças. Eu não quero culpar o salazarismo por tudo, mas a verdade é que foram 48 anos de não inscrição, de não acontecimento. E herdámos isso. Ainda não recuperámos. O ambiente em que vivemos não nos permite ter intensidade de vida, de pensamento, de acção, para que possamos inscrever-nos na nossa própria vida, na Europa, no mundo global, etc. Uma vez assisti a uma entrevista com o jovem físico português, João Magueijo, que vive em Inglaterra. A repórter perguntava-lhe: "Você trabalha com matemática, não em laboratórios. Não podia ter descoberto essas teorias em Portugal?" E ele respondeu imediatamente: "De maneira nenhuma. Sabe porquê? Por causa da intensidade das trocas de pensamento em que eu vivo quotidianamente. É isso que me faz pensar."
P. - A influência "do fora".
R. - Absolutamente. É essa intensidade que nos falta. Nós somos tão inteligentes como os outros. Somos inventivos, produzimos. Mas caímos nisto.
P. - A incapacidade de agir vem de dentro, do nosso medo. Mas, quando alguém tenta, o que acontece? Temos a aprovação ou a sanção dos outros?
R. - Uma sanção terrível. É o mecanismo da inveja.
P. - Não agimos, mas também não deixamos ninguém agir. Como funciona esse mecanismo?
R. - O mecanismo da inveja tem a ver com práticas da magia, o "mau olhado", o "quebranto", e também com o que em psiquiatria se chama "transferência psicótica", ou seja, o que passa de uma pessoa para outra e não é verbal. Imagine que você chega ao pé dos seus colegas e diz: "Fiz uma reportagem extraordinária!" E não está a falar por vaidade, mas objectivamente. Mas logo o tipo que está a seu lado diz: "Ai sim? Pois muito bem." E com este tom introduz em si um afecto inconsciente que o vai paralisar.
P. - É um mecanismo semelhante ao do ostracismo?
R. - Exactamente. Cria-se um ambiente que é hostil à iniciativa e que tem um efeito sobre a própria vontade de querer fazer. Isto é generalizado em Portugal. A inveja é mais do que um sentimento. É um sistema. E não é apenas individual: criam-se grupos de inveja. Várias pessoas manifestam-se simultaneamente contra a sua iniciativa. Cria-se um ambiente de inveja. Um grupo determinado age segundo os regulamentos da inveja.
P. - É uma atitude concertada ou inconsciente?
R. - Pode ser concertada ou inconsciente, mas funciona. Não se permite que numa empresa, num escritório, ninguém ultrapasse a linha da média baixa. Vivemos reconhecendo-nos como irmãos na desgraça.
P. - Mas por que se faz isso? Não seria do interesse de todos encorajar cada um a fazer melhor?
R. - Sim, mas há um efeito de espelhos. Se você faz alguma coisa de forte, isso deveria ser um estímulo para mim, para fazer algo também forte. Mas não. Vê-lo forte diminui-me a mim. Vê-lo com intensidade, com iniciativa, faz-me pensar, por causa da imagem que tenho de mim, na minha pobre condição, em que não faço nada. E faço tudo para destruir a sua iniciativa, para que eu possa viver. Você sufoca-me com a sua energia. Terrível isto. Uma pessoa sufoca a outra com a sua energia. E o resultado é que estamos todos sem energia.
P. - Mas para que essa acção da inveja tenha efeito não é necessário que a "vítima" esteja vulnerável?
R. - Precisamente. Um etnólogo pôs-me essa questão. Disse: só se é afectado pela inveja quando se quer, quando se está num estado determinado. Eu respondo: sim, em quem tem a pele grossa não entra nada. São as pessoas porosas que são fragéis. E isso é típico de Portugal. Os portugueses são sensíveis, porque não são maduros. Isso poderia ser maravilhoso. Somos pessoas de pequenas percepções, de intuições imediatas, e por isso sentimos quando alguém está a torcer para que não avancemos. Faz curto-circuito, fecha o espaço das possibilidades. É um sistema.
P. - Uma espécie de acordo tácito para que ninguém aja, ninguém ameace, e possamos viver em paz.
R. - Precisamente. Para que possamos viver em paz. Porque temos medo do conflito.
P. - Daí os "brandos costumes"?
R. - Recusamos o conflito a céu aberto, mas temos uma violência incrível na nossa sociedade. Violência doméstica em relação às crianças. Os brandos costumes escondem uma violência subterrânea enorme.
Um dos maiores pensadores de todo o mundo
José Gil, 65 anos, autor e professor catedrático de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, define-se como especialista no "pensamento filosófico do corpo". Entre a regência de várias cadeiras de Filosofia contemporânea e a orientação do mestrado em Estética, encontra tempo para a
escrita. É autor de numerosos ensaios, artigos em revistas culturais, entradas em enciclopédias e livros de reflexão filosófica. Os seus temas vão desde Fernando Pessoa e Salazar até à dança e a pintura. Em 1990 ganhou, com a obra "Cemitério dos Desejos", o Prémio Jacinto Prado Coelho. Recentemente escreveu "A Profundidade e a Superfície - Ensaio sobre 'o Principezinho', de
Saint-Exupéry" e, agora, "Portugal, Hoje - O Medo de Existir".
Antes de ir para França, onde se licenciou em Filosofia, na Universidade de Sorbonne, em 1968, estudou Matemática na Faculdade de Ciências de Lisboa. Em Paris, foi aluno, admirador e amigo do filósofo Gilles Deleuze. Em 1982
completou o doutoramento, na Universidade de Paris 7, com uma tese sobre "O Corpo como Campo de Poder". Ensinou no Collège International de Philosophie, em Paris, na New School for Dance Development, em Amesterdão. Regressou a Portugal em 1976, para desempenhar o cargo de adjunto do secretário de Estado do Ensino Superior e da Investigação Científica do VI Governo Provisório. A última edição da revista francesa "Nouvel Observateur" considera-o um dos "25 grandes pensadores de todo o mundo"
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